Estamos em 1991, ano que poderíamos chamar, como reza a contracapa de “Funeral Divertido” (Cavalo de Ferro, 2025), o “último da era soviética”. Neste curto, divertido e insano romance de Ludmila Ulitskaya, tal como no último e imperdível filme de Hal Hartley – “Onde Aterrar” na tradução portuguesa -, o centro da acção é um apartamento em Nova Iorque, onde reside um pintor chamado Álik e um estranho grupo de personagens, composto entre residentes habituais e visitantes mais ou menos incómodos.
Álik, a viver os últimos dias de vida, está rodeado por algumas das mulheres que marcaram a sua vida de emigrado russo, na Nova Iorque dos anos 1990: Irina, o seu primeiro grande amor; T-shirt, o nome dado à filha de ambos; Nina, a sua actual mulher; e Valentina, a sua amante.
Para além deste quarteto que faz faísca entre si, Ludmila Ulitskaya brinda-nos com outros personagens e situações caricatas, como colocar à mesa de cabeceira de Álik, e nem sempre de forma alternada, um padre e um rabino, que disputam a sua alma e o tentam (des)convencer a abraçar o último desejo da sua mulher: que Álik seja baptizado antes do sopro final.
Tendo a fuga da Rússia como o elo comum entre si, as personagens vão recordando histórias pessoais e colectivas, resolvendo conflitos antigos ou despertando outros adormecidos, enquanto que, no pequeno ecrã, se vai dando conta da iminente queda do regime soviético, levando a pensar no que é afinal a pátria de cada um.
Um livro prazeroso como poucos, sobre a complexidade das relações humanas, escrito com muito humor, sentimento, sensibilidade e uma banda sonora que se ouve como a última faixa de um álbum duplo sobre a existência terrena. Soberbo.











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