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“Foi o Preto” | Ângelo Delgado

Por Isabel Daires · Em 01/04/2026

José Lima – ou Zé, para familiares e amigos – responde com bons modos quando é interpelado por um polícia, a propósito de uns desacatos que descambaram numa alegada tentativa de homicídio. Afinal, não fez nada de mal – limitou-se a viajar, tranquilamente, para assistir a um jogo de futebol do clube do seu coração. Infelizmente, Zé é negro, num tempo e num lugar onde parece prevalecer uma “lei não escrita […] que diz que um preto é sempre suspeito”.

Ângelo Delgado não receia usar a palavra “preto”, inclusive no título deste romance: “Foi o Preto” (Oficina do Livro, 2026). Sendo filho de pais cabo-verdianos, nascido em Lisboa, em 1981, mostra conhecer em primeira mão as múltiplas formas como a palavra é aplicada a pessoas de pele mais escura, e declara-o logo na primeira frase do preâmbulo: “Crescer preto em Lisboa, na década de 90, foi uma tarefa árdua”.

É precisamente no Portugal dos anos 90 que o seu protagonista enfrenta uma situação kafkiana: o acusador sabe que agiu sob pressão de um conhecido que é racista e deseja retratar-se, mas não lhe é permitido alterar a sua declaração. A libertação de um inocente detido torna-se, assim, algo estupidamente complexo, determinando que permaneça preso até ao julgamento, para sofrimento do próprio e de todos quantos lhe querem bem.

A vivência da prisão – onde se apercebe do número desproporcional de negros encarcerados – é marcada pelo frio e pela humidade, por ruídos e silêncios próprios, pela privação da liberdade de movimentos, pela limitação dos contactos com o exterior e pelo adiamento dos projectos de vida. A par de tudo isso, há a mágoa da injustiça de um caso acerca do qual o advogado considera que “o racismo está presente em cada aresta”.

A representação deste sofrimento é um aspecto tocante do texto, algo transmitido não só através do protagonista – que, para se sentir em diálogo com a família, redige cartas jamais enviadas, as quais funcionam como uma espécie de diário, embora ele ache essa ideia demasiado romântica – mas, igualmente, através das perspectivas dos familiares, alguns dos quais enfrentam as suas próprias experiências do racismo. Experiências que começam cedo, em “locais de instrução, fé e formação”, como escolas, igrejas e clubes desportivos, que mais parecem concebidos para recordarem o lugar e os limites prescritos pela sociedade para quem é diferente da maioria dominante.

Todavia, o autor também representa com realismo pontos de vista opostos, tanto daqueles que nutrem rancores que se transformam em ódio, como dos que com eles compactuam. Tanto a ficção como o preâmbulo revelam um espírito atento a uma realidade complexa, conhecedor das raízes históricas desta e dos mecanismos pelos quais a discriminação se reforça. Um livro socialmente empenhado, no qual a defesa de valores que deviam ser de todos se conjuga com uma narrativa emocionalmente envolvente.

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Isabel Daires

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