A história remonta a Novembro de 2024, mês do lançamento do projecto “A Quarta Parede”, criado para proporcionar o encontro entre artistas nacionais consolidados e artistas do distrito de Leiria. Durante duas semanas, que viriam a ser de intensa criação, os cinco elementos dos First Breath After Coma (FBAC) e Salvador Sobral instalaram-se na Casa Varela – Centro de Experimentação Artística, numa residência artística onde partiram do zero absoluto para compor temas originais. Uma residência que Salvador Sobral descreveu como “uma experiência de liberdade criativa que não tinha sentido antes”, enquanto Roberto Caetano, vocalista dos FBAC, destacou a naturalidade com que Salvador se integrou no grupo, tornando-se rapidamente “um dos nossos”.
O projecto culminou com dois concertos esgotados no Teatro-Cine de Pombal, com a apresentação da obra “A Residência”, que mais tarde seria também apresentada no Teatro Maria Matos, onde se recriou em palco a intimidade e a energia dessas duas semanas passadas na Casa Varela. Em Agosto próximo, no festival Vodafone Paredes de Coura, haverá mais uma oportunidade de assistir ao vivo a este projecto que, em Dezembro de 2025, conheceu uma edição em vinil colorido, num estiloso branco pérola, com o selo da Omnichord Records.

Segue-se uma viagem, faixa a faixa, a um disco que chegou tarde no calendário, mas que foi um dos grandes momentos de felicidade musical de 2025 – e, por extensão, deste ainda precoce ano de 2026:
“Intro” é aquele momento de preparação para a aula de Yoga, Pilates ou Ginástica Localizada, onde se fazem os exercícios de respiração e se arriscam os primeiros alongamentos, tudo ao compasso de um fole e de uma porta que range, sem timidez, em fundo.
“Je Galére” pede a guitarra emprestada a Sufjan Stevens – e a “Should Have Known Better” -, com Sobral a planar na língua de Brel até nos brindar com um final operático, fechando definitivamente aquela porta que teimava em ranger.

Em “Sombra”, as teclas vão brincando como se passeassem num parque de diversões, até à chegada de uma (quase) sirene que arranca um elogio poético – “A tua sombra, o meu refúgio” -, como quem caminha da escuridão para a luz segurando uma candeia de versos acesos.
“Tu Y O” parece chegar de um longínquo planeta, em tempos conquistado pela armada espanhola. Um lugar onde se dança de vassoura nas mãos, enquanto se apanham os confetti de uma festa de arromba terminada há minutos. De repente, o tropel de cascos soa lá fora, anúncio da chegada de um exército que chega para tomar a fama de assalto, entre avisos de “não me siga, se não liberto estricnina” e a afirmação de um estado de alma: “A fama é uma forma falsa e não sou eu”.
É em catalão que chega “Amor i Temps”, um dos momentos altos desta residência. Uma valsa lenta, quase um momento de ascensão, um “beam me up Scotty” pedido pelo Capitão Kirk à USS Enterprise depois de sondado e registado um território desconhecido.
“Got My Needs” é Salvador Sobral em modo Bad Bunny, à boleia de um processador de texto – e de voz – com ligeiro embalo hip hop, onde o inglês se funde, mais tarde, com um acertivo e bem cuspido monólogo em francês, numa visão menos melosa da arte de amar: “Parce que au fond je crois maintenant qu`aimer/ C´est pouvoir sans romantizer tout poétises” – ou, como se diz por cá, “Porque, no fundo, agora acredito que amar é ser capaz de ser poético sem romantizar tudo”. O final é vertiginoso, como aquele momento em que se deixa cair a primeira peça de dominó de uma construção que demorou horas a preparar.
“Now That You`ve Got In” é uma declaração de amor em marcha lenta, sem espaço para a vergonha ou o medo de assumir a fragilidade, por alguém que, depois de ter deixado entrar o amor, não o quer ver partir. Um parente afastado do Bluriano “Tender”, menos espiritual e mais carnal, a pedir um abraço sentido.
A despedida tem lugar n`“O Quarto de Aida”, lugar de conforto onde habita um bebé que vai ensaiando as primeiras palavras, passado de colo para colo entre duas pessoas que acabaram de conhecer a felicidade, enquanto pensam de forma fantasiosa em tudo aquilo que o futuro lhes reserva. E, mesmo que o desconhecimento seja imperioso, há ainda assim uma certeza: “Eu vou cá estar”.











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