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O Que Não Sei de Ti, Éric Chacour, Alfaguara, Deus Me Livro, Crítica,
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“O Que Não Sei de Ti” | Éric Chacour

Por Isabel Daires · Em 05/02/2026

Aos doze anos, Tarek descobre que as perguntas simples exigem cautela. Durante um passeio junto ao Nilo, com o pai e a irmã, uma pergunta aparentemente inocente, sobre o carro que gostaria de vir a ter, acaba por conduzir à determinação da sua futura profissão: levado a optar entre a engenharia e a medicina, escolhe tornar-se médico como o pai, por não saber o que faz um engenheiro. A partir desse momento, no Cairo de 1961, acompanhamos o jovem no cumprimento dos projectos que outros traçaram para a sua vida, envelhecendo sem saber ao certo o que deseja alcançar, até que o amor se infiltra, como um grão na engrenagem da existência, semeando o caos num percurso até então ordenado.

Em “O Que Não Sei de Ti” (Alfaguara, 2025), o seu romance de estreia multi-premiado, o canadiano Éric Chacour mostra-se exímio na recriação do mundo no qual Tarek cresce: o meio burguês e ocidentalizado dos cristãos levantinos, num Egipto cosmopolita, onde convivem gentes de ascendências diversas, paralelamente ao qual se ergue uma outra identidade, árabe e muçulmana. De ambos os lados, há cheiros e sabores de fazer crescer água na boca, mas também preconceitos e violências, sobretudo quando o país, “na sua busca obsessiva por estabilidade, exigia a cada um a glorificação da moral e da tradição”.

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Tarek, que sabe pouco acerca da homossexualidade, apaixona-se por um homem mais novo, chamado Ali – um prostituto que não se envergonha de sê-lo e vive na “exaltação do presente”. Separados por diferenças de idade, educação, profissão, família, estatuto e religião, têm apenas em comum o facto de “serem homens no Egito, num século XX moribundo”. Como avisa o narrador, “esse raro ponto em comum, porém, iria condenar-vos mais que qualquer outra diferença”.

A obra estrutura-se em três partes, com títulos que são pronomes pessoais – “Tu”, “Eu” e “Nós” –, atribuídos na perspectiva deste narrador, que começa por interpelar Tarek, ao mesmo tempo que nos fala de uma promessa feita a uma mãe, de um casamento que começa doce e termina infeliz, de uma ameaça, de um desaparecimento e de várias revelações. Descobrimos a sua identidade apenas no final da primeira parte, para em seguida acompanharmos a sua história na segunda, narrada na primeira pessoa com perturbação crescente, tal é a dificuldade em conceder ao enredo o final desejado. Trata-se de alguém que, embora sofra com uma ausência, declara que nunca estará do lado de quem julga, mas antes de quem tenta imaginar. Alguém que nos faz reavaliar a nossa interpretação inicial do título do livro, que antes parecia remeter para o que Tarek desconhece acerca do mundo do seu amante, e que ganha um novo significado após percebermos quem reconstitui o passado e tenta assumir o controlo do presente.

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Isabel Daires

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