Qual é a relação entre a calçada portuguesa e a mortalidade por pneumonia? Embora a pergunta possa parecer estranha, existe mesmo uma ligação, segundo explica Ricardo de Sousa Antunes, num livro pequeno – mas muito informativo – intitulado “Desigualdades em Saúde” (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2025), que integra a colecção Ensaios da Fundação.
O autor possui um currículo notável: trata-se de um enfermeiro, professor e investigador, doutorado em Sociologia, detentor de uma pós-graduação em Análise de Dados, com experiência de trabalho em equipas multidisciplinares, em vários países, em parceria com instituições locais e transnacionais, entre as quais a OMS, a ONU e a UNICEF. Além de tudo isto, prova aqui ser dotado de talento para apresentar questões complexas de forma clara, expondo associações nem sempre óbvias e abordando os dados estatísticos de uma forma que transcende a mera repetição de números.
Graças à breve perspectiva histórica sobre a evolução da noção de saúde e das políticas respectivas, aprendemos que “a saúde nem sempre foi considerada uma prioridade e muito menos um direito, tal como actualmente temos por garantido”. Aliás, as primeiras formas de protecção estatal da saúde surgiram na sequência da industrialização europeia, com o objectivo de “garantir mão de obra robusta e saudável” para as fábricas. A perspectiva hoje partilhada pela maioria de nós acerca do assunto nasceu na esteira da democratização e de mudanças sociais que levaram à reivindicação do direito à saúde, o que teve como consequência “um aumento exponencial na procura de cuidados de saúde”.

Por sua vez, as desigualdades que o livro analisa não dependem necessariamente do poder económico, nem da acessibilidade dos cuidados de saúde, nem das formas de tratamento existentes: diversas variáveis nos contextos sociais em que cada indivíduo se desloca condicionam os estilos de vida, bem como a interpretação dos sintomas das doenças e as reacções subsequentes.
Um aspecto especialmente interessante do livro é a dissecação de paradoxos e lugares-comuns. Por exemplo: Portugal é o segundo país da União Europeia com mais médicos por habitante, apesar da percepção generalizada de escassez desses profissionais (e podemos atribuir responsabilidades à centralização excessiva do nosso sistema na profissão médica); nos países mais ricos da Europa, onde as famílias têm maior poder económico, a percentagem do orçamento familiar gasta em saúde é menor; as nossas assimetrias regionais são inegáveis, mas uma maior concentração de recursos de saúde nem sempre corresponde a melhores resultados de saúde; maiores rendimentos nem sempre se traduzem em vidas mais longas, tendo a escolarização grande impacto a esse nível. E, como não poderíamos deixar de notar, é feito um elogio ao contributo da leitura para a saúde. Leia, portanto – pela sua saúde!











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