Foi, no ano de 2021, uma das grandes viagens poéticas por território nacional, conduzida pela poeta Marta Chaves. “Avalanche” (ler crítica) mostrava um desajeito tremendo para a dor, almejando alcançar um lugar onde se estivesse sem fazer nada que, na verdade, era onde se estaria de verdade.
Quatro anos depois, Marta Chaves regressa com “Intervalo” (Assírio & Alvim, 2025), um livro onde o silêncio e o fogo são presença recorrente, e no qual os intervalos surgem de variadas formas, vivendo-se quase sempre “entre a aturada percepção e o aéreo descanso”.

Em menos de 50 páginas, Marta Chaves revela um inquebrável sangue-frio, que imputa “ao sangue a certeza de que tudo gela”; lança um grito incessante, que faz o mundo encolher “engolido pelas suas bocas, emparedado pelas suas vozes”, enquanto as gárgulas se vão revezando para manter viva a assombração; pega em artigos do quotidiano, como quem desfolha despreocupadamente uma Casa & Jardim em busca de inspiração, partilhando que “à noite, gosto de colorir a água com a tinta do chá”; olha para a tristeza nos olhos e abraça a descrição, guardando no bolso “a dor alheia e as emoções felizes”.
O consolo chega do acto de fumar, “uma forma de devastação prazerosa”, enquanto o som de Angel Olsen enche a sala e mantém vivo o desejo do anonimato, tudo “para que o tempo me esqueça”. É entre quatro paredes que a autora dobra “as esquinas dos livros, não da rua”, geografia onde descobre, também, o alimento para (possíveis) dias felizes: “Nasci para esperar, para aprender a esperar mais e melhor”. Passar o intervalo ao lado de Marta Chaves nunca será uma desilusão.











Sem Comentários