Na história da Filosofia, foram muitas e diversas as opiniões sobre a natureza humana, e até que ponto já estaríamos moldados a partir do momento em que nos apartássemos do abraço e casulo feito de líquido amniótico. Hobbes, por exemplo, defendia que o homem é mau por natureza, e que cabe à sociedade impor a ordem para evitar o caos; já Rousseau acreditava que o homem nasce bom – o “bom selvagem” -, e que é a sociedade, com a sua desigualdade e os seus vícios, que trata de o desencaminhar. Concluída a leitura de “Soichi: As Maldições Inconvenientes” (Devir, 2025), somos tentados a fazer parte da equipa Hobbes, tal não é o grau de maldade deste catraio que usa pregos nos dentes para compensar a falta de ferro no sangue.

Soichi é, de forma mais ou menos resumida, um rapaz com problemas vários, que vive sozinho no seu quarto, fala com bonecas e chupa pregos como se fossem rebuçados, dedicando-se a exercícios de vodu e outras maldições inconvenientes sobre todos aqueles que com ele se cruzam, sejam os colegas de escola ou os primos que o visitam de tempos a tempos.

Neste livro, que cruza o medo com o humor particular de Junji Ito, descobrimos professores feitos de pano, bonecos de palha pregados a árvores, histórias habitadas por um professor que acredita poder mudar o mundo, uma avó de Soichi conhecida como a “velha do mau presságio” ou um avô que morre dias depois de ter construído o seu próprio caixão.
“Soichi: As Maldições Inconvenientes” é Junji Ito no seu melhor, em mais um volume que se junta à já apreciável obra do autor japonês publicada em Portugal. Nunca a acupuntura meteu tanto medo.











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