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Entrevista: Mónica Ojeda

Por Pedro Miguel Silva · Em 29/12/2025

Os últimos anos têm visto chegar, às livrarias portuguesas, muito bom romance vindo da América do Sul. Um desses exemplos é “Mandíbula” (D. Quixote, 2024), da equatoriana Mónica Ojeda, com quem estivemos à conversa na edição do Folio de 2024.

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Chamou a este romance Madíbula, palavra que surge por 49 – 50, se contarmos com o título – vezes na sua forma original ou lá perto. Porém, fica a ideia de que o livro se poderia chamar Deus Branco, tal não é o domínio que esta cor exerce na narrativa. O texto de Annelise, um desvio ao pedido ensaio sobre os contos de Poe, é quase um mundo à parte, que poderia ser editado como um conto. Há também uma ponte invisível com “O Livro Branco”, de Han Kang, que a partir de uma simples lista de coisas brancas – a neve, o sal, o arroz, o cabelo dos velhos… -, avança para reflexões mais profundas, sejam sobre o luto, a beleza ou a fragilidade e a estranheza da existência humana. O que a fascina no branco, tão decisivo neste “Mandíbula”?

Tudo começou com a leitura de um livro de (Georges) Didi-Huberman – “Blancs Soucis”, no original -, um ensaísta teórico de arte que me fascina. Nesse livro, Huberman analisa como o branco desperta, em algumas peças artísticas, uma espécie de emoção ou perturbação em quem as contempla. A brancura funciona como uma espécie de antecipação da mancha, algo que não pode permanecer limpo durante muito tempo, o que gera inquietação. Transportei essa ideia para a Literatura, e comecei a ler muitos contos e romances de terror para investigar a representação do branco, tendo-me surpreendido ao encontrar muitos exemplos onde tem um papel protagonista, quase tão importante como a própria escuridão. Há também o capítulo central de “Moby Dick”, onde se fala do branco como a fonte de inquietação, ou ainda o Continente Branco – a Antártida -, lugar escolhido por Edgar Alan Poe – “As Aventuras de Arthur Gordon Pym de Nantucket” – ou H.P. Lovecraft – Nas Montanhas da Loucura” – para alguns dos seus contos. A partir desta ideia, comecei a pensar na adolescência como uma espécie de continente branco. A infância é olhada como um lugar puro, associado à brancura, enquanto que na adolescência se dá uma transformação do corpo, associada ao desejo e à sexualidade, que vem perturbar a brancura da infância. A emoção do terror experienciado em “Mandíbula” tem a ver com o medo da mudança, das transformações, mas também com os desejos proibidos, que vêm manchar algo luminoso e limpo.

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Clara, a “professora sem fé” a que os alunos chama “Latin Miss Bovary”, “estava convencida de que era possível conhecer uma pessoa através da forma como escrevia”. É possível conhecer Mónica Ojeda a partir da leitura de “Mandíbula”?

(Risos) Sim, mas apenas fragmentos. As personagens são muito complexas, e há toda uma parte do que faz um ser humano que nunca está posta em palavras (risos).

Clara é vítima de uma relação abusiva, de uma mãe que, antes de morrer, lhe diz que é a rapariga mais chata do universo. Nada que a demova de se converter “numa réplica exacta da própria mãe”, um doppelgänger tão preciso que a própria família acaba por se afastar por medo. Algo que Clara faz não como um desafio ou uma zombaria mas, diz-nos, como um acto de amor. Num mundo de manipulação e dissimulação, as fronteiras entre o abuso e o amor são assim tão ténues?

Sim, absolutamente. Creio que o amor é uma fonte de terror inesgotável, e a morte imprime ao corpo medos relacionados com a perda, o abandono ou o medo de não ser correspondido, levantando questões sobre o desejo que são complicadas. O amor é complicado, é uma pergunta filosófica, e como todas as perguntas filosóficas de peso tem um lado obscuro, violento, eticamente pesado. Clara é uma personagem interessante, que imita a sua mãe um pouco como no “Psycho” de Hitchcok. Trata-se de um amor obsessivo, um amor que roça o ódio, que alimenta o desejo de que a mãe desapareça através do acto voraz de devorar a sua personalidade. Ao devorar a personalidade da mãe Clara torna-se nela própria, ao mesmo tempo que a elimina. Há algo de voraz no amor que acredito estar explorado no romance, esse desejo de devorarmos (simbolicamente) as pessoas que amamos através da imitação, do controle, da manipulação, da posse daquilo que constitui a fonte do seu afecto.

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Este é um livro sob o medo nas suas mais variadas formas – das transformações do corpo, do olhar do outro – um medo que cheira “a urina quente que molhava um pijama com luas e estrelas”. O facto de a história se passar no Colégio Bilingue Delta, uma High-School-for-Girls, foi uma forma de passar a ideia de que não há idade para o medo e, sobretudo, que o medo não é uma questão de classes? Ou isto “só faz sentido se for perigoso”?

Essa é uma pergunta difícil.

As questões de classe estão muito presentes no livro.

O medo é uma questão de classe, mas também o são os tipos de medos. Estas raparigas são parte de uma elite económica, de um contexto repressivo. Os medos que sentem não são os mesmos dos jovens de outros estratos sociais. O medo e o terror que experienciam têm que ver com o desejo, as normas impostas à sua sexualidade, o controlo do corpo que se quer domesticado. Elas estão numa etapa de desejo aberto e pleno, investigando as possibilidades no corpo e, à sua volta, encontram um medo sancionador, e o terror que encarnam é o de sentir que o seu próprio corpo não lhes pertence, que os desejos que sentem lhes são desconhecidos. Travam uma guerra com os seus próprios impulsos, que resulta da educação restritiva e repressiva que receberam.

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Neste mergulho no mundo de adolescentes privilegiadas, imersas na contagem de likes e visualizações, descobrimos uma playlist onde cabem Lana Del Rey, Amy Whinehouse, Lorde ou Lady Gaga. Para terminar, um desafio triplo: desenhe-nos alguns temas para escutarmos durante a leitura de “Mandíbula”, confirme-nos se Rimbaud é de facto uma obsessão sua e desvende-nos um pouco qual é o “exercício funambulista” que tem de momento entre mãos.

“Born To Die”, Lana Del Rey; “Hurts Like Hell”, Lorde; e “Young God”, Halsey. Não são necessariamente as minhas favoritas, mas são canções que imagino serem as preferidas destas personagens. Rimbaud é um poeta interessante, esteticamente fascinante, mas não é um dos meus poetas favoritos. De momento estou a estudar a relação entre música e monstros latino-americanos, instrumentos musicais inventados e canções que invocam o diabo e os monstros. Veremos onde isto me levará.

—

Fotos: Luísa Velez

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Pedro Miguel Silva

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