“Espera por Mim” (Edições Asa, 2025) é um romance de António Mota que nos apresenta Saul Antonino, um jovem confrontado com a experiência inaugural de viajar sozinho de comboio. Este acontecimento, aparentemente simples, assume progressivamente um valor simbólico, funcionando como eixo narrativo para a exploração de sentimentos de ansiedade, insegurança e expectativa perante o desconhecido.
A narrativa inicia-se com um sonho perturbador, no qual o protagonista se vê incapaz de se levantar do assento do comboio, com os pés colados ao chão. Esta imagem onírica estabelece desde cedo a tonalidade simbólica do romance, sugerindo o medo de avançar e a dificuldade em romper com a imobilidade da infância.
“Na linha cinco estava Saul Antonino, um rapaz magro. […] Como era a primeira vez que viajava sozinho, Saul Antonino estava apreensivo. Ele sabia que não podia perder o comboio, não podia esquecer-se da bagagem, não podia distrair-se. […] Saul regressou à Gare do oriente a tempo de descobrir que a carruagem vinte e três estava a seu lado. As portas automáticas começavam a abrir-se devagarinho, muito silenciosas. Saul assustou-se. […] A mãe não estava junto dele, e isso era um grande problema. […] O comboio começou a deslizar sobre os carris. Saul Antonino olhou pela janela distraidamente, sem reparar em nada.”

A viagem, o desconhecido e o medo são temas presentes, de forma metafórica, na narrativa, para explorar o crescimento. Não se trata apenas do crescimento visível, do corpo, mas também do crescimento pessoal, simultaneamente corajoso e ansioso, expectante face à mudança, desassossegado pelos desafios futuros e desconfortável com a autonomia que se aproxima. Quem não se lembra da sua primeira viagem, por mais curta que tenha sido? Quem não guarda essa primeira emoção?
“Espera por Mim” fala ao leitor de uma viagem interior e existencial – uma viagem de escuta do próprio eu. O ritmo da viagem e o movimento do comboio induzem o leitor a um deslocamento físico, vivido com ansiedade e marcado pelo medo de ser autónomo, reflectindo a interioridade e a transição da infância para adolescência. A viagem de comboio que Saul Antonino se prepara para realizar em “Espera por Mim” ultrapassa claramente a sua função narrativa imediata, assumindo-se como metáfora do processo de crescimento. Esta não é uma viagem simples entre dois lugares, mas a passagem entre duas idades e tudo o que isso acarreta.
António Mota, reconhecido por todos como um escritor sensível, próximo da realidade dos jovens (talvez seja mais correcto afirmar dos jovens não muito citadinos), explora os seus medos e desejos, as suas relações e expectativas. Faz tempo que António Mota nos habituou a desvendar os segredos da adolescência, a falar sobre a honestidade das emoções, dos confortos e desconfortos do que é crescer, da importância de nos relacionarmos connosco, com os outros e com o mundo.
Esta é uma narrativa linear, em que a ação é secundarizada em favor das emoções e das reflexões implícitas do protagonista. Desta forma, o autor dá ênfase à introspeção do protagonista, transversal neste livro sensível e comovente que é uma excelente narrativa para se iniciar um diálogo.











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