É frequente ouvir-se que os portugueses não participam em iniciativas de cidadania porque são conformistas e não se interessam por causas colectivas. Igualmente comum é a crença de que quem se abstém de votar é ignorante e não se interessa por política. Para desfazer tais preconceitos, recomenda-se a leitura destes dois livros: “A Participação Cívica em Portugal” (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2025), de José Carlos Mota, e “O Tanto que Grita Este Silêncio: Porque se abstêm os portugueses?” (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2025), de Nelson Nunes.
O primeiro, integrado na colecção Ensaios da Fundação, é da autoria de um investigador que já esteve envolvido em vários projectos associados à temática da cidadania, e que aqui apresenta alguns conceitos ao público não especializado, traçando uma breve história da participação cívica, descrevendo casos que tiveram lugar no nosso país e deixando sugestões para o futuro.
Uma das ideias centrais é a de que um estilo de governação centralizado e distante desmotiva o envolvimento dos cidadãos em matérias de interesse colectivo, mostrando estes “um genuíno interesse e forte participação” quando são vistos como parceiros de mudança e lhes é dada a oportunidade de conceberem e experimentarem soluções para os seus problemas. Por outro lado, embora saiba que “prevalece a ideia de que o envolvimento cidadão contribui para o aprimoramento do regime democrático, fortalece a relação entre eleitos e eleitores, aproxima os membros da comunidade e promove a melhoria da qualidade de vida”, o autor mostra estar ciente da existência, nestes processos, de riscos e limitações que não convém desprezar.
No segundo livro, pertencente à colecção Retratos da Fundação, a escrita é menos formal, pois não se trata de um ensaio académico. O que lemos aqui é o resultado de uma indagação pessoal às motivações dos abstencionistas, que se assumem e se dispõem a explicar a razão de não se deslocarem às urnas. Partindo do pressuposto de que os abstencionistas não são uma massa amorfa, o autor recolhe e reproduz testemunhos que lhe permitem repetir que “a participação política está sempre relacionada com o estado de vida das pessoas”: há gente esclarecida, que vê notícias e lê os programas eleitorais, mas não vota como forma de protesto, ainda que tencione votar quando a realidade mudar; há quem não queira votar porque, devido a circunstâncias específicas, não se sente suficientemente informada para fazê-lo de forma responsável; há abstencionistas radicais, que se reservam o direito de não participar no sistema porque não concordam com ele; haverá, certamente, muitos desinteressados, mas os casos compilados justificam a rejeição de generalizações.
Por fim, são apresentados depoimentos de quem estuda a abstenção e elabora propostas para reduzi-la, embora, curiosamente, surja a ideia de que, até certo grau, ela assinala uma democracia saudável: indica que não existe turbulência política, nem a sensação de que um resultado eleitoral afectará drasticamente as nossas vidas. Além disso, recorda-se que há regimes com participações eleitorais altíssimas, apesar de deixarem muito a desejar em termos de democracia. Conclusão: “a participação elevada é boa se não for sinal de caos político nem coerção”.













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