A partir do romance homónimo de Cyril Massarotto, Grégory Panaccione transporta o leitor para uma história de queda e ascensão, num confronto de um tipo sem rumo com o seu “eu” passado, que o obriga a revisitar os objectivos e sonhos de vida que muito tempo atrás havia traçado.

O protagonista de “Alguém com quem falar” (Asa, 2025) dá pelo nome de Samuel, que segundo a “ex” de há 8 anos se transformou em alguém pouco ambicioso e com quem quer cortar laços definitivamente, apesar de o único contacto que mantêm ser o facto de Samuel lhe ligar sempre que faz anos. Para Samuel, o presente é um lugar pouco animador, mesmo em dia de aniversário etilicamente bem aviado: “Sem convidados. Sem amigos. Sem telefone. Ninguém com quem falar”.
Num exercício de memória, telefona do fixo para o único número que lhe ficou gravado na memória: o da sua casa de infância. Estranhamente alguém atende, e o cenário é o de um episódio de Twilight Zone: Samuel irá conversar com o seu “eu” de 10 anos, uma comunicação que irá ganhar alguma regularidade.

Neste retrato da solidão, onde como companhia tem apenas um casal de idosos que vive no mesmo prédio, Samuel irá confidenciar ao seu “eu” ainda em formação as suas agruras com o patrão, que deseja estrangular em sonhos mais ou menos acordados, ou a sua paixão por Lina, gestora de projectos na empresa onde Samuel inventa, sem grande ânimo, slogans e nomes de colecções para roupa de cães. Nesse diálogo impossível, figurado e contínuo, Samuel irá aos poucos redefinir um rumo para o que lhe resta da vida terrena, tentando que o pequeno Samuel encontre um destino melhor. Afinal, “a criança que eu era não gosta do adulto que eu sou”.
As ilustrações de Panaccione são quase cartoonescas, oferecendo expressões faciais exageradas e em primeiro plano, algo que aumenta a carga emocional que este livro transporta, um mergulho numa humanidade com tanto de falível como de transformadora, sempre disponível para a reinvenção.











Sem Comentários