“Se não tiver mais ninguém, tenho sempre o meu irmão” – assim pensou uma jovem, durante anos, até o irmão gémeo desaparecer da sua vida, num suicídio precedido por um afastamento inexorável, geográfico e emocional. A dor dessa ausência é o tema central de “Aquilo em que Preferia não Pensar” (Dom Quixote, 2025), da neerlandesa Jente Posthuma, obra finalista do Booker Prize International de 2024.
O texto está organizado em fragmentos curtos, não cronológicos, que relatam uma existência marcada pelo trauma de um abandono. Apesar do título, a narradora reflecte bastante sobre o que a perturba, lançando sobre o passado um olhar de amor fraterno e de saudade, mas também de mágoa, ciente de que o irmão nem sempre se comportou da melhor maneira com ela.

Afinal, ele, tendo nascido primeiro, chamava a si próprio Um, e a ela Dois. Fazia o que podia para que ela crescesse a acreditar que ele sabia tudo “um bocadinho melhor”, e era “generoso a fazer promessas”, mas “também achava que tinha direito a mudar de opinião”. Isto para não falar do facto de ser claramente o favorito da mãe. Nesta relação desequilibrada, ela luta pelo afecto dele e sofre quando descobre que, “de todo o amor que uma pessoa tem dentro de si, muitas vezes o outro só é atingido por um minúsculo fragmento”. Visto que nunca sentiu necessidade de ter vida própria, sente-se traída quando ele renega os planos traçados em conjunto para o futuro. Todavia, gradualmente, começa a ganhar consciência da armadilha em que caiu ao considerar-se insignificante: “Só compreendi o quanto me tinha sentido sufocada quando o sufoco acabou, quando o meu irmão se matou por afogamento”.
O tom geral é de melancolia, mas também de perplexidade perante o inesperado. O desamparo da protagonista, que deixou que o vínculo com o irmão – indissociável mesmo para além da morte dele – afectasse todos os seus outros relacionamentos, e que espera agora num limbo o momento em que a sua vida continuará, é comovente. Apesar do laconismo da escrita, pressentimos nas entrelinhas um desconforto existencial indizível que nos toca. Contudo, não se pode dizer que se trate de um livro triste, pois percorre-o um humor desconcertante, tanto na perspectiva sob a qual as memórias agridoces são evocadas, como no processamento de um luto pouco convencional, ou na exploração das peculiaridades e obsessões das personagens – as quais temperam a leitura com um certo grau de surpresa.











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