Queijos de várias cores e tamanhos, na capa de um livro ou noutro sítio qualquer, são uma boa forma de atrair a atenção dos apreciadores do dito petisco – e também não deixam indiferente quem o detesta. Sobre a imagem, um título que fala de francofonia evoca imediatamente a imagética gastronómica de países como a França ou a Suíça, célebres pela produção queijeira. Todavia, esta não é uma obra sobre comida, embora contenha uma deliciosa história de família e nos abra o apetite… para a aprendizagem ou o reforço do francês.
“A Francofonia em Portugal” (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2025) nasce como resposta a uma pergunta com que se confrontou a jornalista Helena Tecedeiro: “a língua e cultura francesas são uma questão geracional que se perdeu nos mais novos”? A investigação, “em busca das bolsas de resistência francófonas” em Portugal, leva a conversas com diplomatas, professores, diversos agentes culturais e outras personalidades que cresceram a apreciar a língua francesa e ainda hoje a defendem, com resultados dignos de registo.

Entre a divulgação de factos que comprovam a nossa ligação histórica a França, esboça-se a conclusão de que, a seguir a uma geração mais velha “cultivada na língua francesa”, se verificou uma quebra na adesão ao idioma. Contudo, “num mundo em que falar inglês deixou de ser uma mais-valia e passou a ser uma obrigação, o francês ainda pode fazer a diferença”. Nessa perspectiva, há portugueses que se interessam pela francofonia na vertente utilitária, virada para oportunidades económicas, de trabalho e negócios – afinal, a quinta língua mais falada do mundo é partilhada por mais de 300 milhões de pessoas, espalhadas pelos cinco continentes, ligando países como a Suíça, a Costa do Marfim, o Canadá, a Tunísia e a Bélgica, sendo as especificidades linguísticas nacionais encaradas como uma riqueza para a cultura comum. E esta não cessa de tentar afirmar o seu valor em Portugal, conquistando adeptos, como atesta o sucesso da Festa do Cinema Francês.
Ademais, é preciso não esquecer a forte ligação do nosso país ao mundo francófono pela imigração: só em França, os portugueses ultrapassam um milhão, e a comunidade francesa em Portugal continua a crescer, estimando-se que ande entre os 50 e os 60 mil elementos. Os fluxos que daí decorrem e a transformação dos estereótipos contribuem para que a francofonia continue a ter um lugar especial entre os portugueses. Assumidamente, a autora preserva um cantinho especial no seu coração para a Suíça: filha de portugueses lá emigrados, nasceu em Portugal, embarcou num avião para o país de acolhimento dos pais com apenas um mês e meio de idade, e aí viveu os seus primeiros treze anos – uma experiência que determinou não só o seu futuro profissional, mas também a elaboração deste livro, que é uma ode sentida à francofilia.











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