Ambientado nos anos 60, “Pés de Barro” (Leya, 2025) – romance vencedor do Prémio Leya 2024 – acompanha a construção da primeira ponte suspensa sobre o Tejo, hoje conhecida como Ponte 25 de Abril, através da história de Victor Tirapicos, um jovem oriundo de Sintra que foi para Alcântara trabalhar na obra.
Chegado a um bairro após ter passado dois anos na prisão do Linhó, por ter roubado pão e batatas para mitigar a fome, Victor Tirapicos encontra ali um micro-sistema social onde convivem personagens marcantes, como o seu próprio tio – sapateiro que faz as chuteiras para o Atlético Clube de Portugal -, a sua companheira Dália – que é muda e pressente desastres primeiro do que os outros -, um velho culto – que “aprende a desler” -, uma peixeira de língua afiada – diariamente sovada pelo marido – ou um bêbedo que costuma declarar-se à sua amada – com serenatas à janela que privam do sono os habitantes do pátio.
Com realismo histórico aliado a alguma imaginação, Nuno Duarte dá-nos a conhecer esta história através do olhar do quotidiano operário, contrastando a “romantização do passado” e a narrativa oficial do regime de então com a miséria que se vivia nestes bairros mais modestos, apelando assim a uma leitura crítica da memória colectiva portuguesa.
Com um estilo de escrita algo original e desenvolvido com mestria, Nuno Duarte coloca a cru a dualidade entre o tradicional português e o avanço para a modernidade, simbolizado pela construção da ponte, com todas as consequências que tal progresso acarreta, principalmente para a população das zonas oriundas. Curioso é, também, o contraste entre a população portuguesa e os engenheiros e responsáveis norte-americanos, que vieram para Portugal dirigir os trabalhos.

Ao explorar também o tema da guerra colonial, a obra proporciona um retrato poderoso do paradoxo de um país que ergue uma infraestrutura que maravilha o resto do mundo, ao mesmo tempo que envia os seus jovens para um conflito colonial desprovido de propósito e sem apoios, que levou Salazar a cunhar a conhecida expressão “orgulhosamente sós”.
“Pés de Barro” combina temas como a modernização urbana e a guerra colonial com histórias e intrigas de personagens carismáticas, proporcionando uma tensão literária eficaz. Transpirando uma consciência histórica e social através de uma narrativa bem ancorada a um contexto real e simbólico, o romance oferece um retrato convincente de Portugal dos anos 60, tingido de modernidade, tensão e o pressentimento de uma revolução iminente.
Pelo meio ergue-se uma ponte majestosa, mas sempre sentindo-se o peso dos corpos que a sustentam, de vidas simples, sonhos trocados por cartas, idas sem volta para África ou fugas para França. No fundo, com a esperança e o medo a conviverem lado a lado.











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