Escrito em 1920 por Osamu Dazai, “Um Homem em Declínio” (Distrito Manga, 2025) é um romance autobiográfico de Osamu Dazai, escritor que alguns apontam como o Dostoiévski japonês. Um romance adaptado para mangá por Usamaru Furuya, que chegou às livrarias portuguesas num volume integral, que não deve ser lido por quem esteja a passar por uma crise existencial – está recomendado para M/18.
Usamaru Furuya é, ele próprio, um personagem do livro, alguém em busca de uma história para um mangá e que, a certa altura, tropeça no diário de Oba Yozo. A desconfiança inicial dá, à medida que as páginas vão passando, lugar ao fascínio, sentimento que partilhará mais à frente da narrativa: “Inicialmente, tinha começado a ler o diário deste Oba Yozo apenas com algum interesse. Contudo, agora, já não consigo parar…”.

O protagonista é alguém que, aos 17 anos de idade, era visto como um “rapaz esbelto”, e que com 25 se sentia “um velho”, sem qualquer vigor ou vontade de arrepiar caminho. O livro preenche o que aconteceu entre esses 8 anos, recuando ao tempo em que o protagonista vivia de acordo com uma personagem por si criada: “Consegui, com sucesso, ser visto como um brincalhão. Com o sorriso certo, as pessoas não me odeiam. (…) Sou um bobo. Vivi 17 anos da minha vida como um bobo”. Um estado que irá mudar quando o descomprometido Horiki Masao, “um bobo sem nada a esconder ou inquietações”, entra na sua vida, ajudando a que a máscara caia, lançando-o num estado de vertigem a que estará sempre associada uma desconexão com o mundo.

Oba Yozo é um personagem do qual é difícil gostar, um parasita – que vive a vida como freelancer na banda desenhada – que se vai alimentando da boa vontade das mulheres, que são aqui retratadas como seres submissos e ingénuos, capazes de abraçar o insulto e a negligência com a maior das boas vontades. Aborda-se o suicídio, a alienação, a militância política ou a dependência das drogas, sendo atribuído ao dinheiro – ou à falta dele – a causa de todo o sofrimento, mas para Yozo não há mesmo volta a dar: “Descobrirei que o mundo é um poço sem fim, um lugar tremendamente aterrador, incorrigível”. Ao pé dos livros de Dostoiévski, este “Um Homem em Declínio” é um crime sem castigo.











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