“A Chave de Casa” (Elsinore, 2025), da escritora brasileira Tatiana Salem Levy, não é um romance de enredo convencional, antes uma narrativa de pulsações interiores, pautada por silêncios, que porventura dizem mais do que diálogos. É um conjunto de memórias à espera de serem revisitadas, conduzindo o leitor por entre uma paisagem emocional espessa onde o exílio, o luto, a identidade e a origem se entrelaçam.
Ao longo das suas cerca de 180 páginas, a obra acompanha a viagem (exterior e interior) da narradora que, após herdar do avô uma chave de uma casa que deixou em Esmirna, a leva do Brasil até à cidade turca. A chave, longe de ser apenas um simples objecto, torna-se um portal metafórico para a revisitação de várias memórias familiares, desde a vida do avô judeu turco, do exílio durante a ditadura brasileira ou da infância vivida entre o Brasil e Portugal.
A morte da mãe, as paixões e a relação conflituosa com o amor ou as dores temperamentais da afectividade vão compondo a narrativa, não numa ordem cronológica rigorosa mas através de uma junção de fragmentos, que vão dando ao leitor uma imagem completa mostrando que não há, propriamente, uma separação clara entre o que se viveu, o que se herdou e o que se imagina.

Misturando passagens embelezadas poeticamente com observações mais cruas e objetivas, sobre a dor e a presença (ou ausência), o livro salta no tempo, deslocando-se entre lugares numa constante busca identitária, onde passado e presente dialogam e em que memórias antigas estremecem no corpo que vive o presente.
Um dos focos do livro passa precisamente pela complexidade identitária: ser filha de exilados e neta de judeus turcos, nascida em Portugal mas levada para um Brasil marcado pela ditadura militar, é uma complexidade que transforma o tema da casa, da pertença e das origens em algo mais do que um pano de fundo, funcionando antes como a espinha dorsal da narrativa.
Para quem procura uma história com ritmo definido e resolução clara, “A Chave de Casa” pode ser algo frustrante, uma vez que é uma obra que se move mais pelo fluxo de memória e pelo sentimento do que pela acção. Porém, para quem valoriza um livro que permite sentir, explorando sentimentos de dor, saudade ou paixão – e que entrelaça a memória pessoal e histórica -, esta chave abre a porta certa.











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