Charles Berberian, conhecido sobretudo pelo seu trabalho em banda desenhada, surpreende os leitores com um maravilhoso livro: “Como Nascem as Árvores” (Orfeu Negro, 2025). Ao abrir o livro, rapidamente o leitor constará que tem nas mãos um livro especial, de grande delicadeza estética. O leitor torna-se um observador, um acompanhante invisível do passeio de uma mãe e do seu filho pela floresta, onde observam as árvores grandes e pequenas, com flores ou sementes, umas mais novas outras mais velhas. O diálogo entre mãe e filho é paralelo ao diálogo intimista entre o texto e a ilustração.
O ponto de partida da narrativa é a pergunta inocente do menino: “Mãe, as árvores casam entre elas? E depois têm árvores bebés?”. Uma visão poética, que Berberian traduz visualmente em imagens delicadas, quase oníricas, onde realidade e imaginação se abraçam. Há páginas em que as árvores parecem ganhar uma aura de personagens silenciosas, testemunhando o diálogo entre mãe e filho.

Na narrativa tudo é delicado e poético. A delicadeza do traço revela um universo de subtilezas, memórias, perguntas – muitas perguntas -, observações e escutas. A opção por linhas imperfeitas transmite a ideia de vida. Afinal, na natureza tudo está vivo e em constante movimento e transformação.
Na paleta cromática encontramos beleza e poesia. Os verdes e castanhos dominam, evocando a vitalidade e o ciclo natural da floresta. Os castanhos e ocres remetem para o enraizamento e para a(s) memória(s). Há uma luminosidade quase transparente, própria da aguarela, dando ao livro uma singularidade especial, um ritmo próprio, lento e contemplativo. Em vários momentos, a presença da floresta ocupa quase todo o espaço, surgindo em páginas duplas, diminuindo as personagens humanas, reforçando a ideia de que o ser humano é apenas parte de um ciclo maior. Momentos mais íntimos, como a conversa entre mãe e filho sobre a vida das árvores, surgem em páginas de tons mais quentes e contidos, criando contraste emocional.

As ilustrações não são meros acompanhamentos do texto — são tão significativas quanto as palavras. As árvores surgem como presenças fortes e vivas, troncos sinuosos e copas que parecem expandir-se para além do limite da página. Em algumas páginas a presença da floresta ocupa quase todo o espaço, diminuindo as personagens humanas, o que reforça a ideia de que o ser humano é apenas parte de um ciclo maior.
“Como Nascem as Árvores” é um convite ao diálogo, à contemplação, ao silêncio, à observação e à escuta, mas também à exploração da natureza e à reflexão sobre os ciclos da vida. Uma verdadeira ode à sustentabilidade, que pode ser lida em silêncio, em voz alta ou a pares, numa atividade intergeracional – o importante é que seja lido e divulgado. Um livro belíssimo, surpreendente e arrebatador, que recebeu o Prémio Bologna Ragazzi 2024 na categoria Comics.
Charles Berberian é francês de origem arménia, nascido em Bagdade. Ilustrador especializado em banda desenhada, parte da famosa dupla Dupuy-Berberian, venceu o Grande Prémio da Cidade de Angoulême e o Prémio de Melhor Álbum do Festival de Banda Desenhada da mesma cidade.











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