Logo nas primeiras linhas de “Toda Fúria” (Abysmo, 2025), Tom Farias apresenta o seu protagonista de uma forma que define o tom e o ritmo do resto do livro: Caniço, um rapaz de 16 anos, “de tez amorenada”, equilibra-se sobre um comboio degradado em movimento “como surfista numa prancha em alto mar”. Enquanto se desvia de cabos de alta tensão e outros obstáculos, o risco à flor da pele transforma-o “numa espécie de protagonista de uma aventura que, ele bem sabia, surripiara a vida a muitos dos seus amigos”. Porém, “a cada estação alcançada, a cada curva vencida”, aumenta a sensação de ser “o dono do mundo, cheio de poder, inflado de coragem”.
Este “equilíbrio de corda bamba” no meio de múltiplos perigos, alimentado pela adrenalina e pela confiança no triunfo, simboliza o trajecto de Caniço no submundo do crime, na grande metrópole do Rio de Janeiro. Órfão de pais que nunca se comportaram como tal – e tendo como única parente conhecida uma avó que habita numa das muitas barracas da favela, mantendo-se à tona à custa de biscates e doações da igreja –, ele foi uma das muitas crianças cuja sobrevivência dependeu da integração na “malandragem carioca”. Inteligente, expedito no roubo e no tráfico de droga, respeitador das hierarquias, acaba recrutado por um bando que aterroriza a cidade. Do chefe, recebe uma nova alcunha – Capitão –, além de esclarecimentos úteis: “O mundo do crime tem que ser encarado como uma empresa”, e aí se pode obter “poder e dinheiro, mulheres e conquistas” – mulheres que são adolescentes amadurecidas por gravidezes precoces, cujos corpos são frequentemente oferecidos como prémios e para quem a melhor sorte pode ser conseguir uma relação estável com um bandido.

As experiências de Caniço mostram-nos o ponto de vista de uma juventude nas franjas da sociedade, capaz de solidariedade entre si, que vive a sexualidade ao som do funk e trava uma luta constante com aqueles que vê como “seus principais exterminadores”: milicianos, polícias, seguranças de lojas e guardas municipais. Pelo meio, não faltam agentes corruptos e passagens por reformatórios que funcionam como escolas do crime, onde o Estatuto da Criança e do Adolescente é letra morta, porque “os processos de sindicância abertos patinavam dos gabinetes às mesas de superintendências e gerências, para serem esquecidos ou arquivados no final, sem que se apurassem de fato as denúncias de maus-tratos e superlotação, apesar do grande alarido feito pelos jornais e telinha das tevês”.
A narrativa, construída na terceira pessoa, com diálogos vivos na gíria carioca, desenvolve-se com base na acção, cedendo pouco espaço à introspecção. Longe da idealização da miséria ou da marginalidade, sem pretender propor soluções fáceis para problemas complexos, o autor oferece-nos um relato intenso de um quotidiano violento, dominado pela fúria de sobreviver a qualquer custo.











Sem Comentários