O último dia do Vodafone Paredes de Coura 2025 esteve ao rubro, tão cheio como o Colombo em dia de jogo do Benfica. Os AIR levaram-nos ao espaço, Sharon Van Etten envolveu-nos numa escuridão com fendas de luz, os DIIV levantaram o dedo do meio à América e os Franz Ferdinand instauraram um verdadeiro motim, numa tarde que começou com frango a ser assado no abraço do carvão. Ficam alguns postais ilustrados em jeito de despedida, de um festival que vai ser difícil esquecer – e quem disse que é preciso?

Em 1988, um estudante de astrofísica e outro de arquitectura embarcaram num “Moon Safari”, fazendo com que os AIR ganhassem um lugar eterno nas enciclopédias musicais. Quarenta anos depois a magia perdura, e é incrível como passado tantos anos Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel conseguem manter o mesmo penteado. Em Coura, os AIR levaram-nos numa viagem pelo Cosmos, mostrando-nos a sua própria versão do 2001 de Kubrick.

A um som imaculado juntou-se um festim cinéfilo, com direito a microfilmes vistos à lupa, macacos em êxtase, jogos de portas, lábios falantes, chuvas de estrelas e meteoritos ou uma aterragem no Planeta Vermelho, sempre com vista privilegiada para o universo. Se existe um outro planeta habitável, algures no universo à nossa espera, os AIR há muito que o encontraram.

Um concerto dos Franz Ferdinand é um pouco como aquela história do algodão: não engana. Com uma série de saltos que facilmente os levaria aos Olímpicos, Alex Kapranos e companhia instauraram o motim em Coura, num concerto onde muito provavelmente terá sido batido o recorde de crowdsurfing desta edição.

De “Franz Ferdinand” (2004) a “The Human Fear” (2025) a banda viajou em modo greatest hits, agradecendo o acolhimento, falando de Coura como um dos seus “lugares preferidos do mundo” e, mais para o final, lembrando-nos a razão de andarmos por cá. “É incrível celebrar estes momentos que não se repetem. Hoje é um deles”. Foi mesmo.

Longe vão os tempos em que Sharon Van Etten, por entre a timidez de quem desmontava o seu material depois de um concerto tocante no Lux Frágil, ouvia contar histórias de como a sua música havia mudado, para melhor, vidas alheias. Estávamos em 2012 e, desde então, Sharon libertou-se – ou pelo menos aparenta tal – das suas incertezas, procurando o seu lugar no universo musical. Algo que parece ter tido um final feliz com Sharon Van Etten & The Attachment Theory, banda com uma dimensão sonora de grande amplitude na qual o folk se tornou maior de idade e decidiu ter um caso sério e algo desgovernado com a música de dança.

Em Coura, balançando a pose de rainha negra com juras de gratidão, Sharon e companhia ofereceram um concerto sublime – o primeiro de uma longa tour -, com sintetizadores banhados em anos 80, momentos de puro jamming, revistação de clássicos e fulgurantes novas malhas, sem medo de entrar na pista de dança sem medo da solidão. “Estamos contentes por poder partilhar isto, é inacreditável. É um bonito festival para se fazer parte”. Não sabemos a que estrada nos conduzirá Sharon depois desta, mas lá estaremos para lhe fazer companhia.

A churrascada começou com o frango a ser lentamente alimentado a carvão, culminando no frenesim da electricidade do forno, com um tempero capaz de provocar um curto-circuito e despertar a gula. A voz de Ana Frango Elétrico esteve quase sempre um pouco baixa, muitas vezes – ou quase sempre – sufocada com o peso da electrónica, mas suficiente para protagonizar um sunset no Taboão digno de um mergulho da prancha.

Imaginem os concertos de intervenção dos Massive Attack, onde tecnologia de ponta vai debitando palavras de ordem contra o estado do mundo, transportados para o mundo granulado do VHS. Já imaginaram? Pois bem, é mais ou menos esta a vertigem dos DIIV, que por entre o seu carrossel de shoegaze e grunge catártico, tudo com muita auto-ficção pelo meio, nos serviram um manifesto político anti-capitalista capaz de ombrear com os livros de Thomas Piketty. Numa tarde de karaoke literário – muitas das letras iam passando em fundo -, os DIIV serviram um manifesto onde coube um revisitar aos 20 anos da Guerra da Coreia, um anúncio tranquilizador dizendo que “o capitalismo não é a razão dos vossos problemas” – e que a resistência, ao invés de uma solução, é mais um recalcamento -, uma queima de livros, um apelo à compra de merchandising, um slide “Free Palestine” parte de um powerpoint manhoso, um anúncio a pizza onde se pedia a morte do presidente, a história de eterna protecção a Israel e, last but not least, um slogan que só por milagre não os levou ainda à deportação: “Death To America”.

Tudo parecia meio estremunhado, até que um comboio humano conduzido por espanhóis partiu rumo à grade, apanhando vários passageiros pelo caminho para dar início ao merecido caos nas linhas da frente. Estes rapazes são incapazes de nos deixar ficar mal.
Fotos: Hugo Lima
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Promotora: Ritmos











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