“As primeiras semanas de liceu tinham sido caóticas, e portanto difíceis de compreender, de respirar, de viver: eu vinha de um mundo pequeno e ordenado, protegido e silencioso, e o caos era uma forma nova de realidade.”.
Crescer não é fácil para o jovem Ettore. Na transição daquilo a que os italianos chamam ensino médio para o liceu, vê-se transladado de uma terra pequena para uma cidade grande e confrontado com dias que são como “etapas a expiar à espera de um fim”. Na tentativa de se situar entre centenas de alunos e descobrir o seu lugar no mundo, escolhe “O Lado Errado” (Dom Quixote, 2025), o que faz com que o encontremos, no início do livro, em prisão domiciliária, entregue às suas recordações.
Através delas, recuamos até ao dia em que é convidado por um colega mais velho a assistir à assembleia de uma federação fascista local, onde tem “a sensação de já não estar perdido e pertencer finalmente a alguma coisa”. Até então – à excepção das canções fascistas de um velho demente –, o seu contacto com o fascismo limitara-se a fotografias e documentários visionados nas aulas de História, cujas imagens lhe despertavam uma “fascinação estética pelas coreografias de grupo e os estádios cheios”. O país parecia-lhe “ordenado e coeso”, livre de dúvidas e angústias. Na família, embora não houvesse simpatia pelo fascismo, não se falava de política. Depois da assembleia, Ettore vê o quotidiano repleto de política e espanta-se por saber tão pouco dela. Acredita que aprende mais naquela federação do que na escola e dedica-se a novas leituras como um “iniciado num culto para poucos adeptos”, estudando com entusiasmo biografias de homens que percebe como sós ou confrontados com um mundo hostil, tal como ele próprio.

Ao reflectir sobre “os pontos de não retorno, as encruzilhadas tomadas pelo lado errado”, conclui que “seria impossível isolá-las uma por uma”. Há o prazer de ver apreciadas as suas publicações em fóruns online, a par da euforia nascida de actos de violência que funcionam como afirmações de poder. O reconhecimento de uns é indissociável do ódio de outros e, apesar das dúvidas, é pelo ódio que Ettore se julga definido, e é através dele que constrói deliberadamente uma identidade, ainda que tome por objectivo construir aquilo que considera um mundo melhor. A radicalização processa-se de tal forma que acaba desiludido com a incapacidade da federação para gerar mudanças, ao mesmo tempo que os líderes começam a parecer-lhe menos puros do que deveriam ser.
Na exposição das interrogações que levam um rapaz de 14 ou 15 anos a tornar-se fascista, o autor, Davide Coppo, não pretende generalizar: “Mas isto, na realidade, era válido apenas para mim”, pensa o seu protagonista. O enredo vai além da política, abordando vários medos e hesitações da transição da infância para a adolescência, incluindo a descoberta da sexualidade, mas é a tensão política que predomina, que nos suga para o precipício de Ettore e nos leva a questionar quantos como ele existirão à nossa volta.











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