“A Matéria das Estrelas” (Dom Quixote, 2025), romance que valeu a Isabel Rio Novo o Prémio Literário Cidade de Almada 2024, principia com o nascimento da Terra. Em poucas páginas, numa prosa luminosa, resume o desenvolvimento do planeta, centrando-se depois na formação do arquipélago dos Açores, daí passando à sua descoberta e colonização, até anunciar que “foi assim, numa manhã de janeiro do ano de 1971, pouco tempo, afinal, após a explosão magnífica que criou o universo, que encontrámos no porto da cidade de Ponta Delgada um navio-patrulha atracado”, prestes a zarpar para Lisboa.
Porém, a partida atrasa-se, pois o guarda-marinho Jacinto não comparece à chamada. A poucos quilómetros, na casa de banho da casa que arrendou com mais dois camaradas, o jovem jaz nu, num coma inexplicável, do qual despertará com sequelas graves, e o mistério em torno do sucedido levará um médico ligado à família a reconstituir-lhe a história.
Através deste narrador, que tem acesso à correspondência de Jacinto para a mãe e assume um papel de investigador – confessando-se adepto de romances policiais e filmes de detectives –, acompanhamos episódios do percurso de alguém que ficou incapaz de contá-lo: da vida familiar, da escola, das poucas amizades, dos amores, e da opção decisiva por uma carreira na Marinha. Atraía-o a perspectiva de cruzar as vastas extensões marítimas e de encontrar aí a sua razão de existir, mas o ambiente tóxico que se gera, nascido de ressentimentos contra a sua diligência e daquilo que se vai descobrindo acerca do seu pai, ensombra-lhe o quotidiano, deixando-o cada vez de desanimado.

Neste ponto do comentário, é forçoso fazer um spoiler para explicar a razão pela qual o final da leitura deixa um travo de frustração, embora a escrita seja envolvente e a intriga cativante: a causa do coma de Jacinto nunca será revelada, pelo que as expectativas dos leitores, nascidas dos indícios disponibilizados, não são nem confirmadas nem satisfatoriamente subvertidas. Por exemplo, quando o narrador afirma perto do início – e repete mais adiante – que a derradeira sensação do jovem antes de entrar em coma “foi um estrídulo metálico que lhe percutiu no tímpano, como o de uma cancela de ferro a ser fechada com violência”, afigura-se razoável crer que a referência ao ruído possui fundamento e relevância, e que a sua origem será esclarecida. Mas não – deduz-se que o médico tenha usado a imaginação, como o próprio assume a dada altura fazer. A sua conclusão é que “fuga de gás, síncope cardíaca, o gesto criminoso de alguém, qualquer uma destas pode ter sido a causa para a perda de sentidos do guarda-marinha Jacinto”.
Na fortuna e na desgraça, a história de Jacinto entrelaça-se com a de Bartolomeu Dias, personagem histórica que quase interpretou numa peça escolar e com a qual se identificou. No final, ambos regressam à eternidade que o mar representa e dissolvem-se entre o pó das estrelas. O universo guarda muitos enigmas, e o caso de Jacinto será mais um deles.











Sem Comentários