Há quem queira fazer de Lola Young uma artista de uma só canção, apontando o TikTok como o mundo ao qual está confinada. Puro engano, minha gente. Lola pode ser Young, mas há aqui uma estrela com alma, sofrimento, talento e ansiedade, alguém que poderá tornar-se uma estrela nos anos que estão por vir – haja grandes canções para tal. Uma estrela que não tem medo de falhar, ou de partilhar, como o fez em Coura, que tinha subido a palco com uma enorme crise de ansiedade, para dela sair como quem acaba de cumprir, com sucesso, a última sessão de um longo calvário de terapia.

No meio de um palco disposto em semi-círculo, Lola Young foi tratando de criar com o público uma química tremenda, à boleia de canções embebidas num R&B que dão espaço para a voz de Young brilhar. Uma voz tremenda, frágil, mas acima de tudo uma voz real que não recorre a artifícios ou muletas pré-gravadas.
“Vocês fazem tanto barulho em Portugal, como conseguem? Estou a gostar demasiado, adoro-vos”. A primeira de várias juras de amor, a que seguiram outras como esta: “Vou dizer isto só uma vez. São a melhor assistência que já tive na vida. Vou mudar-me para aqui. Nunca me trataram com tanto amor”.

Num dos grandes concertos desta edição, houve tempo para uma escrever carta de amor ao seu dealer – “sim, sou uma adicta” -, uma “canção triste” – “You Noticed” -, que fez ondular um mar de lanternas chinesas, um altíssimo momento de dança e coros caprichados em “Conceited”, um piscar de olhos aos “Big Brown Eyes” – que Lola associa aos “portugueses sexy” – ou uma descida à grade, onde aproveitou para ler os cartazes e tirar algumas selfies. Fãs com quem esteve no final a assinar alguns discos, enquanto borrava a pintura à boleia da emoção. “Isto é o que significa estar vivo. Que se lixe tudo o resto. É preciso dar valor a momentos como este”. Abracemos, sem medo, o lado messy da vida.

Parece haver, nos artistas que visitam o palco principal do Vodafone Paredes de Coura, uma estranha fixação por mobiliário. Em 2019, Mitski trouxe-nos uma instalação sonora centrada numa mesa, onde actuou como contorcionista, cantora, ginasta, showgirl e actriz. Agora foi a vez de Perfume Genius, que fez de uma cadeira vulgar o centro da sua actuação em Coura.
Registado na conservatória como Michael Alden Hadreas, Perfume Genius mostrou dotes de bailarino, abdominais de ginasta e um tumulto interior exteriorizado em enormes canções, muitas delas saídas do seu mais recente e recomendado “Glory”. “Obrigado a todos os que estão a admirar a minha experiência”, atira a certa altura. Obrigado nós.
Fotos: Hugo Lima
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Promotora: Ritmos











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