No mês do emigrante, trinta e um dias onde o francês parece ser a primeira língua de muito boa vila minhota portuguesa, Paredes de Coura – que até é geminada com a cidade francesa de Cenon – recebeu Zaho de Sagazan, num concerto que colocou a fasquia do festival à altura de Mondo Duplantis.
Há um cartaz a mandar bisous e uma bandeira belga desfraldada a dar as boas-vindas a esta jovem de 25 anos, que muitos consideram ser o futuro da chanson française – ainda que, com ela, este seja um género para flirtar, sem criar laços que acabem em casamento. O concerto abre com “Aspiration”, tema onde Zaho, qual femme fatale de uma nova era, simula o acender de um isqueiro, capaz de dar lume ao dernière cigarette do maço.

O primeiro “Olá” chega logo a seguir, assim como a apresentação do quarteto que a acompanha: quatro rapazes vestidos de preto a divertirem-se entre os teclados, a percussão e, quase sempre, em coreografias apontadas à pista de dança. “É tão bonito dizer Je T`aime”, lança antes de “Langage”, música com alma de bailarico que poderia dar uma colaboração épica com Jarvis Cocker – ele que é também um amante da música francesa, ou não fosse o autor do magnifique “Chansons d`Ennui Tip-Top”.
“Tristesse” chega com a apoteose de uma peça de teatro, um céu pintado de vermelho onde há trovões, nevoeiro e, a dada altura, um momento de spoken word, que termina com Zaho de joelhos, parecendo ser sugada por um cone de luz disparado por forças alienígenas em visita de reconhecimento.

A pista de dança abre finalmente, e há até um mote para a festa: “Não fiquem parados, sejam livres como o desejarem”. O momento é glorioso, com Zaho e companhia a terminarem deitados, Zaho com um sorriso do tamanho do mundo e a oferecer-nos um coração feito à mão.
“A próxima não é para dançar. Adoramos dançar e chorar, e agora é para chorar. Chorar pode ser bom, e eu choro muito. Sou muito sensível, mas durante muito tempo achei que não era bom chorar. Quando comecei a tocar piano a minha vida mudou. Passei a chorar muito. Passei 10 anos a chorar e a escrever canções, e agora posso chorar em palco. Obrigado!”. Uma declaração sentida de Zaho, que ainda acrescentou isto: “A melhor coisa do mundo é sermos sensíveis, gentis. Nunca estamos demasiado vivos”. Seguiu-se uma versão imprevisível e muito tocante de “La symphonie des éclairs”, momento em que Zaho desfilou junto à grade, trocando apertos de mão e abraços, partilhando o microfone com o público que ia, com mais ou menos acerto, cantando o refrão. Houve até quem sacasse de um papel com uma tradução em português, numa leitura que trouxe verdadeira comoção.

“Hab Sex” é diversão pura, com Zaho a lançar ao Anfiteatro um convite maroto, num regresso à pista de dança que teria o ponto alto com uma versão estendida de “Ne te regardes pas”. Um “momento de transformação” que serviu para Zaho nos falar do seu universo criativo: “Adoro a chanson française, mas do que gosto mesmo é de música electrónica”. Um universo sonoro onde se sente em casa, e que a ajuda a calar as vozes que a sua cabeça insiste replicar, como o ter de ser magra. “É tempo de a voz se calar, de todas essas vozes se calarem. Nunca se esqueçam de vós próprios”, diz-nos, antes de um momento de dança que levou o Anfiteatro a saltar, numa ebulição de corpos própria de um Tomorrowland que terminou com Zaho a pingar como quem sai de uma aula rasgadinha de spin.

Parecia ser impossível prosseguir a partir daqui, mas Zaho ainda consegue sacar de uma versão de “Modern Love”, canção de David Bowie, que se revelou um momento de comunhão colectiva. “Nunca me irei esquecer deste concerto para o resto da minha vida”, despede-se Zaho de Sagazan, visivelmente emocionada com o acolhimento que teve em Coura, enquanto os músicos se abraçam e saltavam para as cavalitas uns dos outros. Um concerto raro, com tanto de comoção como de catarse, que ficará na história do Vodafone Paredes de Coura como um dos seus momentos mais altos. Bravo, Zaho!
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Fotos: Hugo Lima











2 Commentários
Fui vê-la de propósito a Brest. É incrível! O Viriato SM e a Fatima partilharam comigo este seu comentário- – adorava ter tb estado em Coura… obrigada por reviver os momentos bons que vivemos em Brest
Obrigado nós pela partilha!