Depois de regressar de banhos e já com o devido toque de bronze na pele, a Culturgest prepara-se para uma rentrée musical onde há um pouco de tudo. Segue-se uma apresentação do que poderão ver entre Setembro deste ano e Janeiro do próximo.
5 e 6 Setembro
Operafest – Philippe Boesmans

Sob o mote dos “amores proibidos”, o festival Operafest apresenta a estreia nacional da ópera de câmara “Julie” (2007) – obra-prima do século XXI, do compositor belga Philippe de Boesmans, a partir de texto clássico dramático, “Menina Júlia” (1888), de August Strindberg.
Na véspera do dia de S. João, a jovem aristocrata Julie seduz Jean, criado do conde, seu pai, na mesma noite em que o seu noivado termina. Numa luta de classes e de sexos, Julie evoca a emancipação, rebeldia e desespero femininos, desafiando os limites vigentes da sociedade em que vive. Uma reflexão poderosa sobre o que move o ser humano, sobre o que o aprisiona e liberta.
30 Setembro
Matthew Herbert + Daniel Blaufuks, “Naquele Dia em Lisboa” – Versão Longa

O papel de Lisboa durante a segunda guerra mundial ficou impresso nos livros de História e no cinema. Eugen Schüfftan (1893-1977) foi uma das muitas personagens das histórias de fuga, escapando a uma Alemanha nazi com os Estados Unidos como destino final. Para trás, deixou “Metropolis”, de Fritz Lang, onde foi director de fotografia, e na capital portuguesa, durante curta passagem, haveria de deixar, em película, um olhar sobre a cidade. Em 2023, Daniel Blaufuks realizou uma curta-metragem a partir destas imagens; em 2025, para este projecto, com uma nova e expandida versão, voltou a desacelerar este dia incógnito de 1940, convidando-nos a vivê-lo e a sentir o seu ritmo, alterando o seu tempo e o nosso. Também é a partir do filme “Daquele Dia em Lisboa” que o músico inglês Matthew Herbert se inspira para uma banda sonora original, musicando ruas e pessoas que anonimamente serviram de guias fantasmagóricos para a liberdade.
Este concerto é apresentado também no Theatro Circo, em Braga, no dia 27 de Setembro.
5 Novembro
Hermeto Pascoal & Grupo, “Pra você, Ilza”
Numa vã tentativa de explicar as multitudes de Hermeto Pascoal, apoiamo-nos numa frase recorrente das suas biografias onde se clama que “Hermeto Pascoal é música”. Parece um grito reducionista face à tentação de hiperbolizar a vida e obra deste multi-instrumentista e compositor brasileiro. Nascido no coração do estado tropical de Alagoas, deixou-se ser aceite pela Natureza, criando um diálogo único com os elementos, tornando tudo a sua orquestra: animais, água ou uma chaleira parecem valer tanto quanto um piano ou um saxofone. Dotado de uma irreverência autodidata, cruzou a sua música brasileira com uma ideia de jazz, abraçando o forró ou o choro, sabendo desenhar cenários de fantasia e erudição. Isto é, música para todos os sentidos, para todos nós, tal como o destino da Natureza. E enquanto nos preparamos para celebrar o seu nonagésimo aniversário, Hermeto Pascoal regressa à Culturgest vinte anos depois para nos mostrar como ainda é — e sempre será —, um ser livre e inspirador.
Este concerto é apresentado também no Theatro Circo (Braga), a 7 de Novembro, no Teatro Viriato (Viseu), a 8 de Novembro e no Auditório de Espinho, a 10 de Novembro.
26 Novembro
Kara-Lis Coverdale, “From Where You Came”

Quando nos visitou em 2018, como parte do Konoyo Ensemble, de Tim Hecker, mas também na função de concerto de suporte dessa noite, Kara-Lis Coverdale trazia “Grafts” na sua mala, uma obra exuberante que nos deixou a sonhar com o futuro. Entretanto, sete anos passaram, vivemos uma pandemia pelo meio, e quase acostumados com o seu silêncio recebemos “From Where You Came”, um disco de uma beleza comovente e arrebatadora, feito contra o nosso tempo, contra o nosso ritmo, contra as nossas expectativas. Música de e para outras esferas, com certeza, feita para um deleite transcendental e inquestionável; música de e para electrónica, que esconde uma mestria de composição rara. Ouvimos “From Where You Came” e pensamos na eternidade desta música, em como dificilmente se deixará marcar pelo tempo. No entanto, ela também exala uma urgência, como um fruto da Natureza, pronto a ser apreciado. Em novembro, no palco da Culturgest, chega a nossa vez de o colhermos.
4 Dezembro
Fennesz & Lillevan, “Mosaic”

Ouçamos “Mosaic” como uma grandiosa imagem composta de pequenos fragmentos. O que faz de “mosaico”, na verdade, uma perfeita analogia para as composições de Fennesz, sempre ricas de sons, texturas e vibrações. Primeiro, foi coleccionando ideias, experiências e improvisações, como mosaicos respigados. Depois, a composição e o trabalho laborioso em estúdio, como a tal grande imagem que pouco a pouco se vai completando. “Mosaic” nasceu assim, com método, disciplina e uma profunda e sóbria determinação. Voltamos a ouvir Fennesz como artesão singularíssimo da melhor electrónica das últimas três décadas, como autor de mais uma esplendorosa obra entre a experimentação de ritmos, melodias subtis e abstrações sublimes de electricidade-elcetrónica. “Mosaic” é um manancial profícuo de matéria sonora do qual o artista visual Lillevan tão bem se inspira, para nos deliciar no grande ecrã com imagens de uma narrativa visual poética, fluída e nebulosa, como se flutuássemos entre estados, nem cá, nem lá. Estarmos juntos nestes momentos é, cada vez mais, uma celebração colectiva preciosa.
18 Dezembro
Três Tristes Tigres, “Arca”

Em 2020, “Mínima Luz” trouxe os Três Tristes Tigres de volta de um silêncio que, para muitos dos juízes da indústria pop, parecia tê-los condenado à história dos anos 90. Não seria de todo uma completa injustiça, pois essa década jamais seria escrita sem referirmos e elogiarmos expansivamente “Partes Insensíveis” (1993), “Guia Espiritual” (1996) ou “Comum” (1998). Eis então chegados a 2025, a “Arca”, o quinto álbum de originais, e uma esperançosa sugestão que talvez os Tigres tenham encontrado aquilo que tanto desejávamos: uma presença regular das suas canções ao redor das nossas vidas. E se os recebemos de braços abertos, também os Três Tristes Tigres abrem o seu coração, prometendo, segundo as suas intenções, “cartas de amor ao mundo”, através da poesia de Regina Guimarães e da música de Ana Deus e Alexandre Soares — três que desde sempre nos deixam felizes quando se reencontram.
21 Janeiro
21 Janeiro
Rafael Toral, “Traveling Light”

Motivo de orgulho de toda uma comunidade musical, Rafael Toral teve em 2024 um ano de apogeu, consequência do êxito e reconhecimento planetário do seu “Spectral Evolution”: um feito súmula para um percurso único, raro e desafiador, trinta anos exactos após o seu primeiro disco a solo, “Sound Mind Sound Body”. Desde então, Toral traçou a sua trajectória, feita de curiosidade e pesquisa, com o cosmos como cenário propício para a dimensão da sua visão musical. A uma discografia imensa e idiossincrática que nos convida permanentemente a revisitações, eis mais uma jornada incandescente com “Traveling Light”. E também uma eloquente e perfeita ‘obra seguinte’ para o seu estelar “Spectral Evolution”, assumindo a urgência do momento e da progressão decidida desta caminhada. Jazz nas estrelas, música electrónica soprada na brisa ambiental que Toral tão bem tece com as suas guitarras, estamos de novo perante algo muitíssimo especial.











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