Recuando ao país e à cidade lisboeta de 1630, sob o domínio espanhol, “O Judeu de Santa Engrácia” (Oficina do Livro, 2025) retrata o caso de Simão Pires Sólis, um cristão-novo sentenciado a morrer queimado na fogueira por ter, alegadamente, profanado e roubado uma igreja ainda em construção, com o nome de Santa Engrácia.
À beira da morte, o acusado – que se recusou sempre a falar em sua defesa – gritou a sua inocência e lançou uma maldição sob a obra, proferindo que a mesma nunca haveria de ficar concluída. Tendo testemunhado o martírio, e ficando abalado com tal proclamação de inocência, Antero Figueira empenha-se em desmontar o processo de acusação, expondo a corrupção e as fragilidades judiciais e religiosas do sistema daquela época.
É esta a premissa que nos é oferecida pelo autor Tiago Salazar, num thriller histórico e jurídico excelente para descobrir detalhes e uma Lisboa fantástica e sombria. Fazendo um uso pleno do poder narrativo, ao recriar vozes e ambientes do século XVII com precisão, Salazar conduz o leitor por uma trama que conjuga fé e religião, justiça, amor, coragem e maldições.
A linguagem utilizada é arcaica, o que torna o livro mais convincente, permitindo uma recriação mais fiel daqueles tempos e imergindo o leitor no século XVII. Embora seja de salutar Tiago Salazar pela mestria nas palavras, a erudição da escrita pode, por vezes, tornar a obra um pouco pesada.

A obra denuncia o funcionamento cego da justiça e, particularmente, da Inquisição, mostrando como os cristãos-novos eram perseguidos sem qualquer pudor – e como a religião era instrumentalizada. Desta perseguição aos cristão-novos, muitas ilações e analogias se podem fazer com outros tempos da história – até mesmo com os tempos actuais.
Proporcionando um retrato de Lisboa do século XVII vivo e convincente, integra também aspectos sociais, jurídicos, artísticos e religiosos da época, equilibrando acção e reflexão e apresentando algumas curiosidades, que têm o condão de arrancar um sorriso aos leitores.
É também dada a conhecer a realidade sócio-política da época, com um Portugal em crise e sob o domínio espanhol, em consequência do “desaparecimento” de D. Sebastião, mostrando-se como várias altas figuras do reino lidavam (e se prostravam) perante o poder e controlo de Espanha.











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