Vencedor do Grande Prémio de Angoulême em 1997, “O Silêncio de Malka” (Devir, 2025) foi inspirado numa história contada a Jorge Zentner pela sua avó, que tratou de inventar um conto com a dimensão do sonho e da esperança, elevado pelo assombroso jogo de cores de Pellejero.

A história, passada na Argentina do século XIX, acompanha a fuga de uma família judia aos pogroms da Europa de Leste, refugiando-se na América do Sul em busca de um recomeço. A sensação de liberdade pressentida vai, porém, ser desafiada pelo preconceito e pela violência, tentando fazer coexistir a fé ancestral na Torá com os rituais e costumes da terra estrangeira onde fizeram casa.
A protagonista dá pelo nome de Malka, uma jovem que o leitor irá acompanhar ao longo de seis capítulos em crescendo temporal, nos quais o peso do silêncio e a importância da memória surgem quase sempre como um lugar de conforto.

As vinhetas, contornadas por um grosso traço negro, são perfeitas na sua imperfeição. Há também vinhetas dentro de vinhetas, num primoroso arranjo gráfico onde o tamanho de cada uma delas acompanha o crescendo da acção. O terror dos pogroms é-nos transmitido de forma dupla: pela força da narrativa e pela intensidade do vermelho, em vinhetas silenciosas que, ainda assim, conseguem incomodar-nos com os seus gritos. Um livro que se lê como uma parábola sobre a edificação de uma sociedade moderna, e que tantos anos depois parece ser ainda mais essencial do que quando foi publicado.











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