Diga-se o que se disser acerca da argentina Ariana Harwicz, existe algo de que é impossível discordar: a sua escrita pode ser tudo, menos conformista ou suave. Os três textos reunidos num volume intitulado “Trilogia da Paixão” (Elsinore, 2025) confrontam-nos com vozes provocadoras, no limiar da realidade, que desafiam tabus acerca do desejo feminino e do instinto maternal (ou ausência dele).
A representação de relações familiares marcadas por sentimentos extremados, presididas por mães com comportamentos disruptivos, é comum às três narrativas. Logo no início da primeira, “Mata-te, Amor”, percebemos que não estamos perante uma daquelas mães babadas que enchem as redes sociais com fotografias e vídeos dos respectivos rebentos. A protagonista parece sofrer de uma depressão que começou ainda antes do parto e a leva a afirmações como “A mamã era feliz antes do bebé. A mamã levanta-se todos os dias com vontade de fugir do bebé e ele chora ainda mais”. A falta de paciência para o filho é acompanhada por raiva contra o marido, com quem forma “um desses casais que mecanizam a palavra amor mesmo quando se detestam”, o que explica o título. Apesar da participação em actividades familiares para “fazer parecer que estamos a viver”, ela encara a passagem dos dias como uma “morte lenta”, questionando a própria sanidade mental, entre cenas de violência psíquica e fantasias de agressão física. A diferença em relação às outras mães é acentuada ainda mais pelo facto de ser uma estrangeira com sotaque numa aldeia francesa, sendo o meio rural importante para a autora dar largas à sua veia mais lírica na recriação da visão da protagonista sobre os seus habitantes não humanos – ciente de que os seus desejos não correspondem às expectativas sociais, ela rejeita a civilização humana a favor da natureza e dos seus impulsos. Porém, não há aqui nada de bucólico, predominando uma agressividade que desliza com frequência para a escatologia e que faz suspeitar que a escrita é intencionalmente desagradável, na sua procura de causar repulsa ao leitor com as referências reiteradas a excrementos e outros fluidos corporais.

O estilo e a temática mantêm-se em “A Atrasada Mental” e “Precoce”, embora o primeiro destes títulos se centre na relação da narradora com a mãe e o outro na dinâmica entre uma mãe e o seu filho, sendo ambos os núcleos familiares abalados por relacionamentos com homens. Entre fantasias, recordações e percepções reais ou distorcidas, o fio condutor da narrativa dissipa-se e a prosa torna-se ainda mais expressionista, brutal e desconcertante.
“Escrevi as três novelas com espírito de vingança”, declara a autora no prefácio. “Espero que as três novelas reunidas sejam lidas como quem entrasse numa casa de outro século e visitasse umas irmãs antissociais, excêntricas, umas mães desviantes”. Pode dizer-se que o objectivo foi atingido.











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