“Toda a Gente tem um Plano” (Quetzal, 2024), e o de Bruno Vieira Amaral parece estar há muito traçado: mergulhar no turbilhão das periferias e mostrar-nos, através da ilusão da literatura, a imprevisibilidade e a fragilidade com que são construídos os alicerces da vida. O seu mais recente romance tem sobre si uma aura de tragédia, uma história de derrota pessoal que acaba por encerrar alguma superação graças a uma banda sonora interior, num livro que é espécie de Vernon Subutex – esse prodígio de Virginie Despentes – das margens.
O protagonista é Calita, em tempos quase esquecidos Carlos, que depois de uma larga temporada em Espanha, onde (sobre)vivia como dançarino e DJ, regressa a Portugal, país de origem onde não tem casa, amigos ou família – geografia onde se sente um impostor. O seu sonho, apesar do ar alcançável, tem o fôlego de uma maratona: juntar dinheiro, comprar uma mesa de mistura e voltar a trabalhar como DJ. A mão que vê estender-se é de uma antiga vizinha, que o coloca no caminho de um pastor com muita lábia e de Pila-Pula, o seu ajudante.

Tal como nos anteriores livros do autor, a galeria de personagens secundárias é fascinante, desde a macumbeira Rosa Quivunge ao enigmático D. Pacas, de Meco Mulato ao professor Pretérito Perfeito, cujo lema de vida assenta em quatro pilares: disciplina, rigor, asseio e mentalidade.
Ao mesmo tempo que acompanhamos o reerguer de Calita, que tal como Sísifo parece ter uma montanha para subir e descer em continuum, recuamos ao seu passado, feito do abandono materno, fugas ao reformatório e uma juventude que ficou por cumprir – mas que, por entre as muitas sinuosidades, lhe ensinou que “o segredo era o amor das coisas belas que vivera”.











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