É um daqueles objectos, envolvidos numa sempre de elogiar capa dura, que fazem com que a expressão “pequeno-grande livro” ganhe todo o sentido. Assinado pelo inimitável Julian Barnes, “Mudar de Ideias” (Quetzal, 2025) reúne 5 sumarentos ensaios e pequenas palestras, inicialmente pensadas para uma emissão de rádio, nos quais o escritor inglês disserta sobre Memórias, Palavras, Política, Livros e Idade e Tempo. No geral, a crença de Barnes tende a ser esta: a mudança de opinião é quase sempre para melhor.
Em Memórias estamos “longe de sermos um cavaleiro ou um comandante de um tanque, estamos no volante de um carro do futuro próximo que não é conduzível”. Neste ensaio de abertura, Julian Barnes fala da mudança como sendo, muitas vezes, um sintoma da alteração da paisagem emocional, apresentando uma lista das coisas mais propícias (e prováveis) a mudança de opinião, seja ao nível do mero gosto, questões estéticas, adesão a grupos sociais ou verdades tidas como mais elevadas.
Em foco está o confronto entre Maynard Keynes e Francis Picabia, um trampolim para olharmos a natureza da memória – de como as recordações de outras pessoas sobre nós próprios são muito diferentes das que guardámos. Algo que faz com que Barnes fale da memória como “um acto da imaginação”.
Palavras é um ensaio que recua na linha temporal para olhar as várias possibilidades das palavras, quando o dicionário servia de guru na Idade de Ouro, “um reino pacífico onde todas as palavras se deitavam, felizes, umas com as outras…”: se não lá está, não existe. Barnes recorda o seu trabalho como assistente editorial num suplemento de um jornal, onde entrou como “um irreflectido conservador” e saiu como “um descritivista liberal”. Confessa também o seu desagrado com o facto de o inglês estar a ser contaminado pelo sotaque americano, o que o levou a sentir, como o pôs Evelyn Waugh, “a ânsia senil de escrever cartas aos jornais”.
Política é um dos mais entusiasmantes ensaios, onde Barnes revela a sua dimensão política apesar de não terem existido grandes conversas sobre o tema no seio familiar. O seu interesse pela política foi gradual, mas continua a acreditar, tal como no passado, que “a vida pessoal e artística eram bastante mais importantes do que a política”.

Barnes confessa ter já votado em seis diferentes partidos políticos ao longo da sua vida, o que está longe de reflectir uma mudança nas suas convicções profundas. “Os partidos políticos é que mudaram, guinando para aqui e para ali, esquivando-se à cata de votos; eu, votante, permaneci um homem de princípios”. Partidos que são descritos como entidades sem fé, “promíscuos”, de “vistas curtas” e “vergonhosamente flexíveis em matéria de princípios”, que tendem a abraçar uma missão transversal a todos eles: “desiludir-nos”. Pelo caminho, ainda nos apresenta a República Benigna de Barnes (RBB), que certamente levaria às urnas muitos votantes.
Em Livros, o processo de ler e reler são apresentados como produtos de tempos distintos, o primeiro associado à juventude e o segundo à velhice. Nas suas revisitações ao seu jovem eu, Barnes admite ter mudado de ideias sobre, por exemplo, E.M. Forster, que passou de renegado a genial, bem como ter-se encantado com um lado para si desconhecido de Georges Simenon, elevando os seus romans durs a essenciais.
“A fechar este breve livro está Idade e Tempo, que coloca em evidência a ideia de acreditarmos na integridade da personalidade sob pena da perdição, indo ao encontro de “uma progressão narrativa na continuidade da nossa vida”. Barnes nomeia aqui, “com um grau mínimo de certeza”, aquilo em que não mudou de opinião: a primazia do amor, a primazia da arte – e a “convicção de que a literatura corresponde ao melhor sistema que temos para compreender o mundo” – ou a certeza de que a religião “é uma fantasia reconfortante”. Sem esquecer o ódio de estimação a Thatcher, que se terá esquecido de que “existe de facto uma coisa chamada sociedade”. Um pequeno-grande livro que fará as delícias dos fãs de Barnes.











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