A diversidade de comportamentos suicidas é quase tão grande quanto o número de perguntas que suscita, mas as 17 narrativas breves que Fernando Pinto do Amaral reúne em “Contos Suicidas” (ler crítica) conseguem, no seu conjunto, transmitir várias e multifacetadas camadas desse universo sombrio.
Nesta entrevista, partimos da ideia do diálogo que podemos estabelecer com o rasto dos suicidas, para sabermos mais sobre as variáveis com que são construídos os contos, além de ouvirmos um desabafo do autor sobre o rumo que vê o mundo tomar e nos congratularmos com a descoberta de um fascínio partilhado sobre os mistérios do sono e dos sonhos que o povoam.

Na nota prévia ao primeiro dos “Contos Suicidas”, escreve que “o suicídio atrai-nos porque a sua consumação implica um aparente silêncio, mas um silêncio que continua a falar connosco através das palavras do suicida, dos amores ou das amizades do suicida, do rasto que o suicida deixa em quem lhe sobrevive”. Mais adiante, no início do último conto, encontramos uma citação de Carlos Drummond de Andrade que também fala do silêncio: “Mesmo no silêncio e com o silêncio dialogamos”. Será correcto afirmar que este livro é a sua forma de dialogar com o aparente silêncio que o suicídio deixa atrás de si? O que mais pode contar-nos acerca da motivação para a escrita destes textos?
Gosto da pergunta porque vê neste livro um diálogo com o silêncio, o que é um bom ponto de partida. Os versos de Drummond supõem esse diálogo – um diálogo que faz parte do tal “rasto que o suicida deixa em quem lhe sobrevive”. Além disso, agrada-me a ideia de uma conversa póstuma, uma dessas conversas que nunca chegam a acabar – infinita conversa que podemos ter na nossa cabeça com alguém que um dia se suicidou. Temo-la ainda hoje com poetas como Antero, Florbela Espanca ou Mário de Sá-Carneiro, mas também com personagens suicidas de outros tempos como a rainha Dido, Emma Bovary ou o jovem Werther, de Goethe – e continuam a dialogar connosco sempre que as reencontramos. Talvez a mais profunda motivação para os meus “Contos Suicidas” esteja nesse diálogo – e espero que algumas destas personagens consigam falar com leitores inesperados.
Em vários destes contos, a acção decorre em pontos específicos de Portugal – Lisboa, Porto, serranias da Beira, etc. –, com algumas deslocações ao estrangeiro – a Macau, por exemplo. Esta diversidade geográfica é propositada, ou acabou por surgir casualmente? Ela precede, acompanha ou sucede-se à composição das personagens?
A diversidade geográfica aconteceu naturalmente, mas traduz um conhecimento de experiência feito, tendo em conta que prefiro situar as histórias em lugares que conheço. Para retomar o exemplo do conto “A Jogadora”, é certo que Macau estava presente no meu espírito quando o escrevi, mas também senti que a cidade vinha muito a propósito, já que a protagonista é uma mulher viciada no jogo e nos casinos. Quanto aos outros cenários, terão surgido em função das personagens, talvez no intuito de ancorar cada enredo numa atmosfera que lhe conferisse verosimilhança – incluindo Lisboa ou o Porto, claro, mas também lugares de passagem, lugares em trânsito como comboios, auto-estradas ou aeroportos.
Encontramos diferentes tipos de narradores nesta compilação de contos. Quais são os critérios que presidem à escolha do narrador para um determinado enredo? Que consequências (se algumas) tem essa escolha na sua relação com o texto?
Os meus narradores oscilam bastante, mas não o faço de acordo com quaisquer planos previamente traçados. Em geral, é a própria história a impor-me ou a sugerir-me o seu modelo narrativo – e o que pretendo é que esse modelo sirva o melhor possível a energia que procuro transmitir à dita história. Por exemplo, no conto “Filosofia”, a ideia de pôr a falar um incendiário ressabiado contra a sociedade digital tornar-se-ia maçuda sob a forma de um longo monólogo em 1ª pessoa, mas senti que o conto talvez resultasse melhor se tal indivíduo extravasasse a sua catilinária ou o seu discurso de ódio perante um narrador em 1ª pessoa que por acaso encontrasse numa área de serviço de uma auto-estrada – narrador que neste caso é um padre católico. Para dar um exemplo contrário, no penúltimo conto – “O Calor do Deserto” – a diversidade das personagens e a carga dramática da história levaram-me a optar por um narrador em 3ª pessoa, tentando assim manter uma certa distância no meio de todo o drama daquela noite sufocante. Finalmente, em certos contos o narrador pode flutuar entre a 1ª e a 3ª pessoa, num processo em que a regra da 3ª pessoa – incluindo a sua omnisciência – pode ser quebrada por ocasionais intromissões de um narrador em 1ª pessoa, criando maior proximidade com o leitor.
De entre todas as referências literárias que faz – a nomes como Manuel António Pina, Sándor Márai, Jane Austen, Álvaro de Campos, Vitorino Nemésio e Camilo Pessanha, entre outros – consegue eleger alguma como a mais marcante para si?
É verdade, são muitas, mas pareceram-me de certo modo necessárias, surgindo cada uma no seu lugar específico. Nemésio e Pina surgem a propósito de dois títulos eventualmente utilizáveis no debate sobre a eutanásia – Limite de Idade e Aquele que Quer Morrer; Pessanha e Campos são figuras tutelares de muita coisa em mim; Jane Austen aparece quando alguém fala de “virgens britânicas”; por último, Sándor Márai serve o propósito de dar ao leitor a ideia de uma longa conversa existencial entre dois amigos de idade madura, na casa dos 60 ou dos 70, sabendo que um deles está a despedir-se da vida: “Almocei com ele no domingo, ele tem a minha idade e mora perto da Foz. A seguir abrimos um vinho magnífico e conversámos os dois sobre as vidas que ambos acabámos por viver, como num livro do Sándor Márai. Depois ainda demos um belo passeio junto ao mar”.

Várias personagens exprimem uma visão muito negativa do estado do mundo, a qual serve, por vezes, de justificação de uma destruição que se pretende redentora. Até que ponto partilha esta visão? O que mais gostaria de mudar no mundo actual, se pudesse?
Infelizmente partilho essa visão negativa, embora talvez não a mais sombria, que seria a dos suicidas – e eu não tenciono suicidar-me, pelo menos nos tempos mais próximos. Existem no livro certas personagens masculinas carregadas de uma raiva ou de um desespero que não são os meus: falo do incendiário (“Filosofia”), do jovem actor Filipe Smirnoff (“O Método”) ou do artista Arsénio Gaspar (“Vírus”), os três particularmente destrutivos – e eu nunca fui assim; no entanto, há um fundo pessimista em mim quando vejo algumas sociedades a caminho da loucura ou da barbárie… Quanto ao que mais gostaria de mudar neste mundo, seria desde logo a ganância dos seres humanos, insaciáveis na avidez de acumular uma riqueza que para 1% das pessoas há muito tempo se tornou obscena, enquanto esses mesmos 1% – ajudados por outros 10 a 20% nos quais me incluo – continuam a dar cabo do planeta. Por outras palavras, gostaria que as grandes potências enfrentassem os dois maiores problemas do mundo – as alterações climáticas e as desigualdades económicas – e que entretanto se deixassem de guerras que originam massacres ou genocídios, mas abandonassem também as estúpidas guerrinhas culturais que envenenam as redes sociais e as relações humanas.
Outro tema recorrente é o sono e o sonho, que podem ser apaziguadores ou originar experiências perturbadoras. Qual a sua relação com esse universo, do ponto de vista artístico?
É um universo fascinante, o do sono e dos sonhos. Durante os anos em que estudei Medicina, o tópico sempre me atraiu, incluindo o chamado sono REM / Rapid Eye Movements por ser o sono dos sonhos, o sono em que o nosso pensamento está vivo e se agita, como se tudo em nós vivesse salvo o corpo, estendido numa cama. Há certamente poemas meus escritos a partir desse tema graças ao qual exploramos os limites da consciência. Voltando aos “Contos Suicidas”, em certas histórias os ritmos do sono ajudam também a ritmar a própria narrativa: por exemplo, cada noite que Zita e Daniela passam juntas contribui para isso no conto “A Cardiologista”. Noutros relatos, pelo contrário, quase não chega a haver tempo para o sono, como no já referido “O Calor do Deserto”, narrado num continuum cronológico.
Um par de contos é particularmente enigmático, e em ambos o sono desempenha um papel crucial, ora como ponto alfa, ora como ómega do enredo: “O Quarto Azul” e “Viagem de Inverno”. Ambos tanto podem descrever pesadelos como experiências pós-vida. Não queremos pedir que nos explique as narrativas, mas gostaríamos que partilhasse connosco algo acerca da luz à qual preferiria que as lêssemos.
Outra boa pergunta, que abre já caminhos para a resposta. Concordo com o adjectivo “enigmático” aplicado a esses dois contos, que – tal como outros dois ou três – não obedecem às leis da verosimilhança mais convencional; digamos que manifestam uma lógica própria, uma lógica ilógica ou parecida com a dos sonhos. São textos mais breves e sem preocupações de realismo, que me aconteceram em momentos que sei serem raros, que podem não se repetir – e que é preciso aproveitar. Em ambos se assiste a uma diluição das fronteiras do tempo, tal como em certos ambientes oníricos: de facto, “O Quarto Azul” arrasta-me para uma realidade à qual talvez possa associar uma experiência pós-vida, seja lá isso o que for; quanto a “Viagem de Inverno”, não sei: haverá quem a leia como a narrativa de um sonho ou de um pesadelo, mas não tenho palavras para a definir.











Sem Comentários