No mundo antigo, a elaboração de uma biografia espelhava uma visão do mundo. Como explica Dino Baldi, parece que não era admissível, a alguém como um poeta grego, “morrer de uma morte que ficasse aquém do invulgar”. Foram-nos, por isso, legados registos fascinantes, que o autor se propôs compilar em “Mortes Fabulosas dos Antigos” (Cavalo de Ferro, 2024).
Apesar de haver alguma sobreposição entre as categorias classificativas das várias mortes, os seus títulos são descritivos e chamativos quanto baste: “Mortes de poetas”, “Mortes de atletas e pensadores”, “Mortes de reis, chefes militares, tiranos e imperadores”, “Mortes de povos, cidades e exércitos”, “Celestes desaparecimentos”, “Selvagens homicídios”, “Suicídios a contragosto”, “Mortes pela mão dos parentes”, “Mortes repentinas por causas naturais”, “Suicídios de cabeça erguida”, “Quase mortos, quase vivos”. Infelizmente, no seu conjunto, a obra fica aquém das expectativas que a sua apresentação desperta, uma vez que as opções narrativas tornam a qualidade dos relatos bastante variável.
Tomemos, a título ilustrativo, o texto acerca do faraó Miquerinos, onde aprendemos que, confrontado com um oráculo que só lhe concedia mais seis anos de vida, mandou fabricar lâmpadas para acender de noite, de maneira a transformá-la em dia e prolongar a sua existência para além do prazo vaticinado. Conseguiu-o? Ficamos sem saber, pois em seguida é introduzida a história do ladrão de Rampsínito e o relato acaba, sem qualquer esclarecimento acerca da morte de Miquerinos.
Outro exemplo, este demonstrativo das assimetrias informativas: somos bem elucidados quanto às bizarrias sexuais do imperador romano Heliogábalo, além de recebermos a informação de que tanto a avó como a mãe “eram ambas consideradas grandes putas” – epíteto que a maioria das sociedades tende a dispensar tão generosamente às mulheres, que o seu valor informativo se torna questionável –, mas por oposição, no pequeno parágrafo dedicado a Antífanes, no capítulo “Outros poetas gregos”, é apenas escrito que morreu “atingido por engano por uma pêra”, não nos sendo revelado quem a atirou, nem o respectivo alvo.

A ausência de contextualização também contribui para tornar a leitura frustrante, até para quem julga possuir conhecimentos medianos acerca da Antiguidade Clássica. Entende-se que talvez não fosse viável caracterizar cada personalidade ou evento, e que se tenha decidido confiar na cultura dos leitores. Porém, um perito que já domine todos os nomes e acontecimentos referidos terá, provavelmente, pouco mais a aprender com este livro. Para um leitor curioso, perante a informação de que “a irmã [de Demócrito] tinha pena de que ele morresse justamente no período das festas Tesmofórias, pois ela não poderia cumprir o seu dever para com Deméter”, seria relevante explicar em que consistem tais festividades, para se entender o dever em causa e a solução que o filósofo oferece à irmã. A plena compreensão de vários excertos exige um esforço de pesquisa.
Além de tudo isto, convém alertar que a intenção do autor é compilar e não analisar dados de fontes antigas. Sem uma perspectiva historiográfica, o pressuposto de que abordará, ”salvo raras excepções, mortes de personagens historicamente comprovadas” é, ele mesmo, questionável. Mas afinal, o próprio Baldi escreve que “a verdade é, por vezes, muito sobrevalorizada”.











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