É mais um volume da colecção Angoulême, com o selo da editora Devir, que nos traz em capa dura alguns dos mais emblemáticos livros premiados num dos mais importantes festivais de banda desenhada a nível mundial. “Alack Sinner: Bófia ou Detetive” (Devir, 2025), álbum da dupla Munoz & Sampayo, levou para casa o Grande Prémio no ano de 1983.
Estamos em Nova Iorque, e o protagonista dá pelo nome de Alack Sinner, um tipo que facilmente poderia ser companheiro de copos de Philip Marlowe, essa invenção maior de Raymond Chandler: adora beber, tem um espírito ético pouco comum no meio e é pouco complacente com a corrupção, razão que acabou por o empurrar da vida de polícia e da visão alargada de justiça do seu então comandante, que defende a utilização dos critérios pessoais por achar que a democracia e a lei não são suficientes.

Este álbum reúne 6 histórias protagonizadas por este detective desiludido com o sistema, num olhar algo desencantado com a justiça e a urbanidade. “Conversa Com Joe” é o cartão-de-visita, uma história de vida contada ao balcão de um bar, em confidências trocadas com um barman que vai fazendo as vezes de um psicólogo de poucas falas; “O Caso Webster” relata o primeiro caso a sério investigado por Sinner, “uma trama paciente e inevitável” à volta de um assassinato que tem como únicos suspeitos os dois filhos do morto, o motorista, a mulher e a amante, com pistas que vão de um envenenamento de um cão a um depósito de carro cheio de açúcar; “O Caso Filmore” coloca Sinner nas mãos de uma jovem, que acredita que o avô foi posto numa clínica para morrer e libertar uma imensa herança; “Constancio & Manolo” mostra-nos que a vizinhança não é fácil de cultivar, numa história de marcas de guerra e pugilismo que ilustra, tanto antes como agora, o perigo de ter opinião própria na América e a urgência da desobediência civil: “desde que nasci e por ter nascido neste país, sempre soube que é perigoso ter uma opinião. Um perigo bastante subtil que, até aqui, nunca me impediu de agir”; em “Città Oscura”, Sinner troca a vida de investigador pela de taxista, numa história que envolve uma amante portuguesa chamada Inferno, um tipo que odeia sindicatos e que aponta a tristeza como um ingrediente pouco favorável a uma relação saudável; a fechar há “Memórias”, onde Sinner parece viver um raro e insignificante dia perfeito, com recordações que vão de um amor antigo à primeira menstruação da irmã mais nova. “Um dia passado a recordar-me de factos insignificantes da minha existência, mais um dia, um dia feliz e solitário. Tinha-me embebedado. Tive reencontros, assassinei alguns peixes, tomei um belo duche. Que é que se pode pedir mais da vida? É a questão que me coloco”. Se não tivessem sido as casas de banho públicas de Tóquio, o “Dias Perfeitos” de Wenders poderia bem ter sido sobre Alack Sinner.

O traço de José Muñoz capta na perfeição o universo denso e negro deste detective com carácter, e de uma cidade que parece ter a acompanhá-la uma banda sonora que nunca dorme, sempre na companhia de uma garrafa.











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