Karim e Fauzia crescem numa época de transformação da Tanzânia pós-colonial, com o advento do turismo, da tecnologia e da globalização, e a entrada no novo milénio. Estudam o que desejam, casam-se livremente e constituem família, rompendo com alguns dos códigos e tradições de gerações passadas. Já para o órfão e criado Badar, as portas parecem estar todas fechadas. Depois de ser injustamente acusado de roubo em Dar es Salaam, Badar parte para Zanzibar a convite de Karim, juntando-se a este e à sua mulher num apartamento que se tornará demasiado exíguo para os três, pondo à prova os complexos elos que os unem.
“Gente da Casa” (Cavalo de Ferro, 2025) é o primeiro livro de Abdulrazak Gurnah após a atribuição do Prémio Nobel de Literatura em 2021. Situado na Zanzibar da década de 1990, este romance de formação traça um retrato pungente sobre a família, a amizade, a generosidade e a dívida sob o pano de fundo dos traumas de um passado colonial ainda demasiado próximo para dele se poder escapar.
Vencedor do Nobel, Abdulrazak Gurnah foi distinguido pela sua “penetração intransigente e compassiva nos efeitos do colonialismo e no destino dos refugiados no fosso entre culturas e continentes“, elementos retratados na sua obra através da exploração de temas como o exílio, a solidão e a família. Em “Gente da Casa”, o autor brinda-nos com a subtileza daqueles que viveram a transição e a sua adaptação a uma nova forma de vida, contando a história de três jovens que crescem e encontram o seu caminho na idade adulta, escrita com uma pena leve, ar fresco e olhar doce.

Gurnah fala-nos de Karim, Fauzia e Badar, que crescem numa época de transformação da Tanzânia pós-colonial e só apenas com a sua minúcia é que se torna possível compreender as delicadezas do povo, das famílias e das mudanças que, sendo introduzidas subtilmente, revelam uma mudança drástica no pensamento e na forma como se lida com o trauma estrutural. Ler “Gente da Casa” é saber que existirá o conforto do lar, mas ainda mais. Trata-se de encontrar uma esperança para aqueles que nasceram sem ela, guiando-os em estados complexos de procura de identidade e de necessidade de integração, sem que disso tenham consciência.
A generosidade intrínseca aliada a uma ingenuidade latente, que mais tarde se transforma em sentido crítico nada prejudicial, é um dos pilares da obra que o autor construiu: por um lado, encontram-se a agitação e as dúvidas; por outro, existe a tranquilidade e o tempo que passa para sarar o que deve ser deixado para trás, com uma despreocupação equilibrada sobre aquilo que é o presente e o futuro.
A lealdade, a generosidade e a entrega são os elementos cruciais que ditam a história das personagens, todas muito fiéis a si próprias e ao que precisam para se poder movimentar. Longe das histórias de países ocidentais, e do ritmo desenfreado que consomem o tempo, “Gente da Casa” é uma reflexão sobre o caminho, a simplicidade e a aceitação.











Sem Comentários