Escrito por Jennifer Croft, tradutora – e também escritora – que levou para casa o International Booker Prize pela tradução do polaco de “Voos”, livro na Nobel Olga Tokarczuk, “A Extinção de Irena Rey” (Casa das Letras, 2025) é bem capaz de ser um dos mais provocantes, imaginativos e divertidos livros sobre a Literatura e o culto da personalidade – e do génio romântico individual -, atirando com o escritor para fora do pedestal enquanto se diverte a brincar com todo o circo e a pomposidade do meio literário. Isto enquanto carrega, em ombros, a arte e o engenho da tradução, “uma espécie de reciclagem”.
No centro do romance estão oito tradutores, que chegam a uma casa no meio de uma floresta na fronteira da Bielorrússia vindos de diferentes partes do globo. A convocatória foi feita por Irena Rey, uma escritora de renome mundial, com a missão de traduzirem “Eminência Parda”, o seu próximo e secreto livro que, antes de chegar à impressão, é já apontado como uma obra-prima. Porém, poucos dias após a chegada dos tradutores, Irena Rey desaparece sem deixar rasto, lançando os tradutores numa busca detectivesca enquanto se vão questionando sobre os próprios métodos de tradução e a essência da arte. Oito tradutores que agem como um culto, designando Bey como a “nossa autora” e que tratam “cada uma das suas palavras como algo de sagrado, apesar de o nosso trabalho consistir em substituí-las todas”.

Jennifer Croft monta este romance de forma engenhosa, qual marionetista que, instalada confortavelmente na sombra, vai tratando de mexer os fios. “A Extinção de Irena Rey” é escrito por uma das oito tradutoras presentes no grupo, cabendo a sua tradução a uma outra tradutora, que vai reagindo ao próprio livro através de muitas notas de rodapé, o que transforma este livro numa matrioska literária onde cada uma das bonecas se vai rindo de forma incontida.
Aos poucos, os tradutores vão-se aventurando dentro e fora de casa, explorando o refúgio arborizado, colhendo fungos e desafiando as artes do veneno, mexendo nos pertences da autora e lendo os seus textos escondidos, numa busca obsessiva e paranóica pela autora que tratam como uma deusa.
Com um ar de falso ar de thriller, Jennifer Croft faz deste livro um festim de subversão e gozo, elevando a tradução a arte e transformando o escritor num tipo comum – ou quase.











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