Estamos habituados a ouvir Afonso Rodrigues cantar em inglês, na pele de Sean Riley – com os seus Slowriders – ou à frente dos Keep Razors Sharp, entre outros projectos marcantes da música lusa. Já com um álbum a solo sob o alter ego Sean Riley, desta vez o cantor surge sem disfarces — “Areia Branca” (Universal, 2025) é o primeiro disco que assina com o seu nome de baptismo e também o primeiro totalmente cantado em português.
A ideia maturava na cabeça do músico há anos, mas foi durante uma viagem ao Malawi, em 2022, que a vontade de gravar um álbum na língua materna se consolidou. “Areia Branca” assume-se como um trabalho de descoberta e um desafio pessoal, construído em parceria com Filipe Costa, seu companheiro nos Slowriders e cúmplice nesta nova aventura.
À medida que mergulhamos no disco, percebemos que o universo sonoro não se afasta radicalmente do território habitual do cantor. Continuamos em paisagens de rock atmosférico, com o dramatismo e as progressões de acordes que já conhecemos dos Slowriders, embora aqui se assuma uma aura mais tranquila. Uma das novidades é a introdução da guitarra portuguesa que, em “Onde Foi”, encaixa de forma natural, conferindo um toque distintamente luso aos arranjos.
As canções mantêm a predilecção por refrões hipnóticos, verdadeiros carrosséis sonoros onde dá gosto girar, como se sente em “Já Nem Sei”, o primeiro single. Há momentos de ritmos pulsantes e infusões electrónicas (Funchal, vibrante e viciante, é um dos melhores exemplos), enquanto outras faixas evocam paisagens sonoras cinematográficas, reminiscentes da grandeza épica de Morricone — uma atmosfera bem patente em “Onde Foi”.
Curiosamente, a transição para o português não dilui a carga emocional da música. Pelo contrário, reforça-a. Não há artifícios ou distanciamento nestas canções; Afonso Rodrigues não veste máscaras nem interpreta personagens. Ele sente cada palavra que canta e entrega-se com autenticidade. A sua voz, sempre uma mais-valia, adapta-se de forma natural ao novo registo linguístico.

A guitarra acústica continua a ser o fio condutor destas composições, mas há um cuidado minucioso na forma como os restantes elementos orbitam à sua volta: a percussão minimalista, os etéreos arranjos de cordas que amplificam as dinâmicas emocionais e as subtis incursões de teclados. Em “Desligar”, por exemplo, um fraseado de piano repete-se em loop, criando uma textura envolvente e hipnótica.
Na recta final, o disco adopta uma toada mais baladeira, pontuada por incursões de pop electrónica, e perde algum do fulgor inicial. Ainda assim, o saldo desta aposta arrojada de Afonso Rodrigues é amplamente positivo — um disco honesto, sentido e que reforça a sua identidade artística, agora sem filtros.











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