Em 2023, a Arte de Autor fintava o destino traçado a muito boa série de banda desenhada, cuja publicação em Portugal se via – e ainda se vê -, por qualquer razão, interrompida a meio caminho. Foi o que aconteceu a Sambre, série de banda desenhada assinada e desenhada por Yslaire – Balac foi o argumentista dos dois primeiros volumes, mas acabou por abandonar o barco – que, até então, apenas tinha conhecido a publicação dos 4 primeiros volumes – o primeiro pela Baleia Azul e os restantes três pela Witloof.
Uma série que será composta por 9 volumes, faltando apenas a edição do último deles – não está ainda terminado por Yslaire. Uma vez que a Arte de Autor tem optado pela publicação de dois volumes num só álbum, prevê-se que o volume 9 venha a ter uma edição solitária, quem sabe com uns cadernos de extras – esperemos apenas que Yslaire não se arme em George R.R. Martin e atire com o livro às urtigas.

Maldito seja o fruto do seu ventre…, o volume V, mantém os níveis certos de drama, romance e política. Estamos em Brest, no ano de 1857, e Julie conseguiu fintar o destino e sobreviver, ainda que a sorte que lhe foi reservada não seja a melhor. Condenada a trabalhos forçados por crime e actividades revolucionarias, a “rapariga de cabelos negros e olhos vermelhos” está agora a cumprir pena perpétua na prisão de Brest. Até que, à boleia de um decreto de Sua Majestade, se vê enviada para a Guiana Francesa para a criação de uma nova colónia, como uma das “felizes escolhidas para a deportação”. Mesmo assim, o desejo de vingança contra os Sambre permanece: “Até ao meu último suspiro, serei aquela sombra no quadro da família, aquela voz que reclama vingança nas vossas cabeças!! Aquele pesadelo que assombra os vossos leitos!!”.
Numa outra geografia, Bernard-Marie Sambre, filho de Julie e do falecido pai, é educado em Bastide pela agora cega tia Sarah, que recusa a extinção da linhagem Sambre prestando culto ao pai e aos seus antepassados, ao mesmo tempo que condena a mãe ao esquecimento. Mãe que não o esquece, prometendo mover mundos para o encontrar.

O mar visto do purgatório… (volume VI) acompanha a viagem de Julie para a Guiana Francesa, interrompida por um naufrágio que a leva até uma pequena ilha da Irlanda. Recusando acreditar que Julie terá morrido, o comissário Guizot, primo dos Sambre, não desiste de a procurar, convencido de que a desgraça que paira sobre os Sambre apenas terminará com a sua morte. Julie é acolhida por Scott Shargreen, guarda de um farol, em tempos médico do exército inglês, que se recusa a entregar Julie e lhe propõe começar uma nova vida a seu lado – mesmo com a inquietação crescente dos habitantes da pequena ilha e a ameaça da febre tifóide.
Yslaire desenha como quem pinta quadros destinados a acabarem em museus, sempre com as sombras a conquistarem o seu quinhão a uma paleta de cores onde dominam o negro e o cinzento, pontuados por tons de vermelho do sangue e dos olhos de Julie. A aventura gótica prossegue no álbum que reúne os volumes VII e VII: “Flor da calçada + Aquela que os meus olhos não vêem”, que já pode ser descoberto nas livrarias.











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