Começou bem e terminou em ombros a edição deste ano do Primavera Sound Porto, num dia em que começámos a comer chouriço assado – servido numa travessa inox – e nos despedimos em modo crowd surfing. O Primavera da Invicta regressa ao Parque da Cidade em 2026, entre os dias 11 e 13 de Junho. Até lá, é tempo de ir sonhando com o cartaz. Será muito pedir Radiohead, Gorillaz, The Blaze, Fred Again…, Lady Gaga ou Lorde?

Se derem por vocês num concerto que começa ao som de “As Baleias”, de Roberto Carlos – mas que não seja de Roberto Carlos -, o interveniente (não) acidental responsável pela brincadeira só pode ser um: David Bruno. Transportando uma assadeira de chouriço e uma travessa de servir de inox, o orgulho de Vila Nova de Gaia ofereceu mais um tremendo concerto, cruzando a stand up comedy com o espírito manif, istoenquanto o “Marquito de Barcelos” viajava na guitarra eléctrica e a máquina de loops disparava do seu pedestal romano. Num palco benzido com água recolhida na sexta-feira 13 da véspera, David Brunoapelou aos influencers dos tascos para não deixarem morrer as travessas de inox, dedicou “Stop na fronteira” a Graciano Saga e a todos os imigrantes ou lançou o debate sobre se ser-se caloteiro é uma forma de empreendedorismo. Enquanto isto, Bandeiras – um Bez (Happy Mondays) bastante mais interventivo – alternava entre os papéis de Homem-Aranha das Caxinas – gritou-se “seguro, seguro” quando subiu aos andaimes do palco com uns sapatos pouco dados à escalada – e de Taxi Driver, rapando o cabelo e criando o seu próprio mohawk. Ainda tivemos a benesse de ver Rui Reininho como o Mr. Purple de Reservoir Dogs, dando cartas no “Tema de Sequeira”. 10 em 10 ou, parafraseando David Bruno, “isto é arte, amigos”.

Continua, desde a sua primeira aparição em Portugal – corria o ano de 2018 -, a ser um dos mais pertinentes mistérios da roda-viva dos festivais: por que raio não são os Parcels cabeças-de-cartaz? Seja apontado a um clube fora de horas – e sem travões – ou a um sunset mais descontraído – como aconteceu neste Primavera -, os autralianos sabem como fazer a festa, preparando uma setlist esmerada. Muitos olham de lado para o seu ar de boys band, capaz de pôr as adolescentes a sonhar com um grande amor ou, no mínimo, com uma paixoneta de verão, mas é difícil não dar trabalho às ancas com este retro disco-funk cheio de virtuosismo. Um dos grandes concertos deste Primavera Sound.

Porquê complicar, quando a simplicidade é tudo e está à mão de semear? À boleia do lore Harry Styles, que muitos acreditaram poder dar um ar da sua graça no Primavera, as Wet Leg fizeram-nos sentar na sua Chaise Longue e, mesmo que as guitarras já não consigam mudar o mundo, ajudam certamente a torná-lo um lugar mais habitável. Apresentando vários temas do seu futuro longa duração – “Moisturizer” chega a 11 de Julho -, Rhian Teasdale e Hester Chambers mostraram-nos que o rock continua a ser um território entusiasmante – e, com elas, bastante divertido. Se os Pixies tivessem continuado a fazer música, poderiam ter soado assim.

Não nos levem a mal. As Haim, banda das irmãs Danielle, Este e Alana – que são como as Lisbon Sisters mas sem suicídios -, têm e transmitem uma química musical tremenda, mas falta-lhes pelo menos um danoninho para estarem ao nível do hype mediático que conquistaram. Na Invicta, antecipando o novo disco – “I quit” – que chegou hoje às lojas e plataformas musicais, contaram-nos várias histórias sobre relações falhadas, listando tudo aquilo do qual desistiram nos últimos anos – seja o isolamento ou as sempre complicadas relações. Ainda houve um momento lacrimejante, no qual Alana Haim puxou do seu talento de actriz, assumindo com o público a sua relação mais duradoura – o que nos diz isto: talvez seja uma boa altura de mudar as configurações dos sites de encontros. Morninho.

Momentos antes do set/concerto de Jamie xx no Primavera, o ambiente em redor do Palco Porto era o de um clube lotado – mas sem a censura da porteira do Frágil -, uma festa de muitas nacionalidades prontas a dançar com um dos maiores feiticeiros da electrónica dos dias que correm. Autor dos imaculados “In Colour” e “Waves”, o primeiro integrante dos The xx a aventurar-se a solo ofereceu um set a várias velocidades, onde aos seus temas mais populares juntou pérolas como a versão brasileira de Caio Flavio para “Somebody`s Watching Me”, dos Countdown Singers. Uma noite em que pudemos partilhar o trabalho arqueológico de Jamie xx, que vai insistindo em fazer dos seus discos enciclopédias da história da música electrónica. “All you children, gather ’round;
We will dance together”. E não é que dançámos?

Terá este sido o concerto dos concertos do Primavera Sound Porto 2025? A julgar pela última meia hora, migalha temporal a que conseguimos deitar olhos e orelhas, é bem capaz de ter sido. Praticantes de um hardcore sem pudor de perder a cabeça na pista de dança, ou de incorporar flautas que teriam levado, sem protestos, as crianças para fora da cidade de Hamelin, os Turnstile são uma das mais entusiasmantes bandas da actualidade, sem medo de explorar fronteiras sonoras – como o fizeram no recente e recomendado “Never Enough”. Crowd surfing, mosh, encontrões, corridas em círculo ou exercícios de remo – tudo valeu no frenético e participado concerto da Invicta. Um privilégio assistir ao concerto de uma banda que está no topo da sua montanha.
O Primavera Sound Porto regressa ao Parque da Cidade em 2026, entre os dias 11 e 13 de Junho.
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Fotos: Hugo Lima
Promotora: Pic-Nic Produções











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