Lançado em 2023 pela Kalandraka, “Os Anjos Não Morrem e Tu Morreste Duas Vezes” (Kalandraka, 2023) juntou-se à colecção Confluências, que se assume como “um abraço entre línguas, uma geminação, uma correspondência generosa, uma fantasia editorial que pretende mostrar – em português e em espanhol – obras em destaque da literatura escrita nas diversas línguas faladas na Península Ibérica e na América Latina”. Este volume corresponde a uma antologia de contos breves assinada por Marta Duque Vaz, envolvidos numa prosa sensorial onde cabe um mundo de geografias, personagens reais ou emoções universais.

“Os anjos não morrem e tu morreste duas vezes”, título homónimo que abre a antologia, tanto se impõe como uma homenagem à arte de cerzer como um levantamento existencial sobre dúvidas circulares sobre o céu que nos protege – como o poria Paul Bowles; num reviver maquinal, “Terra, sangue e flores de laranjeira” olha para uma sociedade patriarcal da porta de entrada; “Breve ensaio sobre o destino” percorre três percursos e cumpre três vontades, oferecendo diferentes olhares sobre o papel dos avós na vida dos netos; “Laura e os dias” conta a história de superação de uma mãe solteira; “Sinfonia para um vestido verde” senta à mesa um grupo de mulheres, desfrutando da “arte de olhar, ver e sentir” enquanto se abraça o desconsolo, o desgosto e a melancolia crónica; em “O anel sem palavras” assistimos a um reencontro de afeição entre tia e sobrinha, experienciando a desertificação do interior e recusando a velhice como a nova criancice, tendo Wagner como banda sonora; “Viciada em inícios” dá origem a sonhos de primeiros encontros com o psiquiatra; a vida de Mariana Coelho, pedagoga, jornalista, escritora e feminista, está no centro de “A pesquisadora”; “A menina é a minha única senhora” apresenta-nos a Dona Manuela, a fada-samurai, e ainda tem tempo para discorrer sobre os contras da escrita; “A faca que corta o musgo” mergulha numa história familiar a partir de objectos guardados em gavetas, e de figuras de um presépio montado com esmero uma vez por ano; “Por um triz” é um inesperado e emotivo tributo ao Minho; e, a fechar, “A arte de ser a última” sela uma amizade com Carlos Drummond de Andrade.
Depois de uma longa investida na literatura infantil e agora nesta antologia, talvez vejamos Marta Duque Vaz arriscar o longo fôlego do romance. Esperemos para ver (e ler).











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