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“Noturno chileno” | Roberto Bolaño

Por Pedro Miguel Silva · Em 31/03/2015

No mundo das letras, se cruzarmos o Atlântico e ancorarmos perto de um qualquer país das Américas, não faltam propriamente candidatos a assumir o lugar de vedeta maior das letras. De Borges a Cortázar, de McCarthy a Foster Wallace, muitos são os nomes que dariam para formar duas equipas e disputar um jogo bem animado. Há, porém, um jogador que qualquer treinador de bancada escolheria para fazer parte do onze titular – e, provavelmente, no papel de médio criativo: Roberto Bolaño.

Desaparecido prematuramente em 2003, Bolaño viveu os últimos dez anos dominado por uma febre criativa, numa urgência que deixou à Literatura um dos seus maiores legados. Se “2666” pode ser apontado como um monumento que se vê a quilómetros de distância, até num dia de intenso nevoeiro, “Os Detectives Selvagens” é, porventura a sua renda de bilros, um melting pot de poesia e romance que atirou com a literatura para lá da estratosfera. Para aqueles que ainda não tiveram a sorte de se deparar com Bolaño e queiram começar por algo mais ligeiro – pelo menos em número de páginas -, “Noturno chileno” (Quetzal, 2015 – reedição) poderá ser um bom cartão-de-visita.

Num livro escrito de um fôlego – composto por um parágrafo solitário de 118 páginas -, o chileno Sebastián Urrutia Lacroix, padre e crítico literário, membro da Opus Dei e poeta medíocre, embarca numa confissão literária sentindo que a morte está perto, demasiado perto. Um homem que estava em paz até ter surgido «aquele jovem envelhecido», fazendo com que as rodas do tempo invertessem dolorosamente a sua marcha.

Quetzal, Noturno chileno, Roberto BolañoAssombrado pelos sinistros senhores Oido e Odeim (anagramas para Ódio e Medo), que recrutam Sabastián para dar aulas de marxismo a Pinochet, o leitor será apresentado a Farwell, o maior crítico literário do Chile; entrará na mansão de Maria Canales, onde se reúne a nata da cultura chilena em serões artísticos; será apresentado a Don Salvador Reys e a Ernst Jünger, que falará de Reys nas suas memórias – é, aliás, o único escritor chileno a ser mencionado; subirá a Colina dos Heróis, projecto grandioso do sapateiro do Imperador; aprenderá que não há melhor animal que o falcão para dar caça aos pombos; assistirá, sem comoção, à decadência da literatura chilena; tentará descobrir o enigma que se esconde por trás da expressão «Sordello, qual Sordello?»; tentará furar o recolher obrigatório imposto pelo Regime.

“Noturno chileno” tem um ar de despedida, de um romance final com um pronunciado travo de amargura, escrito por alguém desiludido com a vida, o acto criativo e, em suma, a própria literatura: «De que serve a vida, para que servem os livros, são só sombras»; ou, ainda , «não há consolo nos livros.»

Algures pelo meio desta estonteante meditação histórica e política – e amarga despedida -, Roberto Bolaño deixa a flutuar um pensamento: «A vida é uma sucessão de equívocos que nos conduzem à verdade final, à única verdade.» Ámen.

Noturno chilenoQuetzalRoberto Bolaño

Pedro Miguel Silva

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