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“Sete” | V.A.

Por Lalma Domus · Em 01/03/2019

Em “Sete” (volta d’mar, 2018) estamos perante uma antologia de poemas inéditos dos autores da própria editora, nomeadamente Amadeu Baptista, Ana Horta, António de Miranda, Carlos Alberto Machado, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Dias, Jaime Rocha, Jorge Vicente, m. parissy, Manuel de Freitas, Nuno Rebocho, Rui Almeida, Rui Tinoco e Sandra Costa.

São 7 anos de volta d’mar e 14 autores, em sensivelmente 40 páginas. Ficamos sem perceber se os poemas foram feitos com vista a esta antologia, ou se foram escolhidos para a mesma por entre uns criados sem este intuito específico.

Cada poema é uma onda. “Chamam cada onda pelo seu nome” (poema de Inês Dias). Aqui é complicado, porque são bastantes e “não tenho poemas que cheguem para calar as ondas” (poema de Jorge Vicente). Para o mar, que é a vida, exigimos poemas, porque “Às vezes, o mar se esquece de ter ondas” (poema de Manuel de Freitas) e aí desvendamos mais tristeza – precisamos de poesia. Precisamos de ondas.

É-nos impossível tecer um comentário que não seja geral em si, mas o bonito da poesia sempre esteve na paisagem que se constrói aos bocados em “forma involuntária de conhecimento” (poema de Manuel de Freitas). A antologia vem por ordem alfabética, numa imposição de imparcialidade. De tantas ondas, há, sem querer, umas que nos são mais benquistas porque aptas para surfar. Temos de destacar este perigo do poder do juízo de valor subjectivo pelo permitir do termo comparativo directo (todas estas ondas estão a acontecer ao mesmo tempo lado a lado – nós sabemos em qual queremos mergulhar).

A pluralidade de sujeitos poéticos é uma rajada regada de dissemelhança – “mil partidas/ mil chegadas/ mágoas mil” (poema de Nuno Rebocho). Esquemas rimáticos díspares (apesar do denominador comum ser uma comichão geral a rimas, já por nós evidenciada em outras leituras), métricas como e quantas quisermos, número de estrofes imprevisíveis: o gosto da multiplicidade. Cada página é um mergulho variegado: “O absurdo de uma adversativa” (poema de Rui Almeida) é, neste caso, um absurdo daqueles afáveis.

volta d’mar, Sete, Deus Me LivroTemos ondas descritivas (“o mar carregador de pedras e neblinas” no poema de Amadeu Baptista), carregadas (“mastiga a mortalha da minha dor crua” no poema de Ana Horta), extremamente metafóricas (“bebeu o champanhe do mar” no poema de António de Miranda), simples em sinédoque (“a vida… converteu-se em naufrágio” no poema de Henrique Manuel Bento Fialho), com ideias modernas (“…mortos ainda à procura do calor de um gato.” no poema de Inês Dias), mas também tradicionais (o mar “É um cão que fala na sua exactidão predadora” no poema de Jaime Rocha). Banhamo-nos em poemas curtos e compridos, frases monumentais (“Nunca pensara que fosse tão forte e tão triste cair nos braços de outro corpo” no poema de Manuel de Freitas”) e conchas que nos passam despercebidas.

Mar, mar, mar. O naufrágio, em burlesco contrassenso, é o que salva a temática do mar: aparece quando nos temos de lembrar que ainda falamos de mar sem apontar mar, nos poemas da volta d’mar. Temos mar enquanto local, mas também mar como sentimento, mar como futuro e mar como mil ideias. O sentido de mar numa eterna formação mental emblemática em “ousar outras cadências” (poema de Rui Almeida) do seu significado.

Tanto a capa como as ilustrações são de Alexandre Esgaio. No centro de todo um layout vulneravelmente venusto, temos que as ilustrações são depostas de 3 em 3 poemas, transmitindo algo estático e metódico, quase forçado. Esta hesitação é compensada pela sensibilidade e sintonia temática das mesmas. Atendendo a todas as “multiessências” presentes nesta antologia, a capa sussurra uma fugaz inconveniência: pronto, o amor… no mar, mas… só o amor no mar? Que amor no mar?

O mar é um “nó que nos desata” (poema de Amadeu Baptista) – a volta d’mar é, por conseguinte, uma revolta nesse nó que nos desata. Temos versos da onda de Rui Tinoco, que, apesar, de na nossa perspectiva, embalados numa hipérbole, descrevem o mergulho: “Ambição tresloucada a da literatura: propor a viagem pela volta d’mar”.

Aconselha-se a leitura de “Sete” a quem tem saudades de praia, a quem quer conhecer o trabalho da volta d’mar e a quem precisa de versos que apresentem o pélago.

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Lalma Domus

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