• Mil Folhas
  • Música Com Cabeça
  • Cine ou Sopas
deusmelivro
Deus Me Livro, Fronteira - Festival Literário de Castelo Branco
Mil Folhas 0

Fronteira – Festival Literário de Castelo Branco: no fim, o que importa mesmo é o ritmo e a melodia

Por Pedro Miguel Silva · Em 12/04/2016

Há coisa de poucas semanas, num texto plantado no Observador que a certa altura parecia ter o aroma de um pacote de leite deixado demasiado tempo fora do frigorífico, questionava-se, entre muitas outras coisas, o facto de a Booktailors, esse misto de promotora e organizadora de eventos – e por aí fora -, ter açambarcado para si só perto de uma dúzia dos festivais literários nacionais.

Para quem esteve em Castelo Branco no passado fim-de-semana, não é difícil perceber a razão para tamanho monopólio literário: uma organização supimpa, convidados de nomeada, moderadores que juntam o humor e a ironia a uma boa dose de preparação. Enquanto não surgir concorrência, que tanto se poderá reflectir em fatos fabricados às três pancadas na China ou em peças de alta-costura assinadas pelos mestres da passerelle, os adeptos dos festivais literários poderão usar os fatos cozidos à mão por estes alfaiates, certos de que irão fazer muito boa figura.

Na sua quarta edição, o Fronteira – Festival Literário de Castelo Branco propôs várias conversas sobre os limites que demarcam a poesia da prosa, tentando perceber se a primeira é a escrita dos preguiçosos ou dos genialmente enxutos e, a segunda, o território dos amantes da palha ou dos construtores de cidades literárias feitas com muito papel.

Fronteira - Festival Literário de Castelo Branco, Deus Me Livro

O nosso acompanhamento do Fronteira começou com a Sessão Especial com Manuel Alegre, uma viagem bibliográfica moderada por Tito Couto que incidiu em cinco dos livros escritos pelo poeta e prosador português no decurso de uma longa carreira literária: “O Miúdo Que Pregava Pregos Numa Tábua” (2010), “Praça da Canção” (1965), “Senhora das Tempestades” (1998), “Bairro Ocidental” (2015) e “Uma Outra Memória” (2016).

“Um livro de aprendizagem e iniciação poética”, descreveu Manuel Alegre “O Miúdo Que Pregava Pregos Numa Tábua”, dizendo que a toada, palavra que o tem acompanhado desde sempre como um mantra, lhe chegou da música, dos poemas que se liam em voz alta e de lugares inesperados como as aventuras de Sandokan. Mostrando-se um pouco incomodado com o facto de a Biblioteca de Castelo Branco não ter nas vidraças ou numa das paredes interiores um verso seu, Alegre elogiou Camilo Pessanha e Mário de Sá-Carneiro, declarando Pessoa e Camões como os dois maiores e inultrapassáveis vultos da poesia portuguesa.

Se “Praça da Canção” é um livro escrito à volta da ideia de ir à guerra, por lá morrer e depois voltar, “Senhora das Tempestades” partiu de uma situação-limite vivida por Alegre, que nele viu uma espécie de exorcismo perante um enfarte que quase o levou a conhecer o Senhor lá de cima mais cedo. Um livro que Alegre diz ter sido escrito em “estado poema” por uma mão com vida própria – um estado de inspiração total e quase involuntária que, no mundo dos comuns mortais, equivaleria a qualquer coisa como aviar uma bandeja de tequillas com um panama paper branco de entremeio.

Fronteira - Festival Literário de Castelo Branco, Deus Me Livro

Já “Bairro Ocidental“ girou à volta da ideia de Portugal estar, então, a caminhar a passos largos para se tornar numa “junta de freguesia da Europa ou uma estância de férias para reformados alemães”. Um livro nostálgico, que sonhava com devolver a Portugal o Império perdido. “Uma Outra Memória”, editado em 2016 – o mesmo ano em que Manuel Alegre recebeu o Prémio da Sociedade Portuguesa de Escritores e o Prémio da Associação de Escritores Portugueses -, foi descrito por Alegre como “um livro sobre mim”, feito de afectos e amizades. A ideia que ficou do percurso de Alegre, bem como da sua forma de olhar as fronteiras – talvez ténues – entre a prosa e a poesia, acabou por atravessar toda esta 4ª edição do Fronteira, resumida por Tito Couto a partir da história que Alegre contou de uma visita a Sophia Mello Breyner, em que esta recitou poemas sem o uso das palavras, recorrendo apenas à sua musicalidade: “No fim, o que fica é o ritmo e a melodia”.

O dia de encerramento do Fronteira esteve ao nível de uma maratona literária, com seis sessões que só não foram de enfiada porque também é preciso jantar. Será um Prosador um Poeta Sem Capacidade de Síntese? Foi esta a questão que Tito Couto colocou a Jacinto Lucas Pires e Nuno Camarneiro, onde se poderia também ter brincado ao jogo d`o meu livro é maior que o teu. Afirmando que tem com a poesia uma relação marcadamente fortuita, Camarneiro falou da construção literária “pelo ritmo e pelo som”, defendendo que a poesia – e o formato mais curto – é mais propensa à música do que a prosa. Jacinto Lucas Pires fez questão de começar por ler um conto seu, defendendo a importância da oralidade e o papel que esta deve ter na Literatura. Lançou ainda uma imagem curiosa, que opôs a dança – a poesia – à caminhada – a prosa -, rejeitando no entanto que o conto esteja a meio caminho entre ambas.

Fronteira - Festival Literário de Castelo Branco, Deus Me Livro

Escrita enxuta ou húmida? Foi com esta interrogação em jeito de brincadeira que Pedro Vieira partiu para uma moderação primorosa de uma sessão intitulada Geografias Humanas: do Desnorte à Gramática do Medo, que juntou três amigas de longa data: Inês Pedrosa, Maria Manuel Viana e Patrícia Reis. Referindo-se ao livro de Maria e Patrícia como um lugar em que cada uma tentou entrar no universo criativo da outra, Inês Pedrosa falou também do seu “Desnorte” como um livro que retrata o país e a sociedade contemporânea, tocando as relações familiares, o olhar sobre o corpo, as expectativas perante a vida e a forma como cada um lida tanto com o sucesso como com o fracasso. Maria Manuel Viana disse não serem tanto as palavras a exerceram sobre si o fascínio mas antes a gramática do ser, sendo esta “Gramática do Medo” uma viagem pelas fronteiras e geografias humanas, onde a realidade e a ficção – bem como a prosa de ambas as autoras – se confundem. Patrícia Reis olha para a Literatura como o lugar privilegiado para o combate à solidão, seja ela a do escritor como, também, a do próprio leitor.

Será o poeta um prosador com tiques de preguiça? Bem, a verdade é que Matilde Campilho, uma das metades da mesa moderada por Nuno Costa Santos, cancelou a sua presença à última hora – o motivo esteve longe de ser a preguiça -, deixando José Eduardo Agualusa com a missão – cumprida, diga-se – de entreter o público por si só. Descrito por Nuno Costa Santos como “um estivador literário”, Agualusa partilhou a ideia de que “para escrever um romance é preciso paixão para começar e disciplina para terminar”, afirmando ser um prosador muito disciplinado. Para o escritor angolano, “o poeta pode ser mais indisciplinado que o romancista”, referindo a poesia como o seu grande alimento quando tem de se atirar à ficção. A partir de um conto seu onde uma mulher receitava – leram bem – poemas contra qualquer tipo de maleita, Agualusa referiu-se à poesia como sendo mais útil e eficaz que qualquer livro de auto-ajuda. Fez ainda um grande elogio à rede de bibliotecas públicas portuguesas – algo que em Angola é ainda uma distante utopia – e, quando questionado com a inevitável pergunta sobre a condenação dos activistas angolanos – que considerou um escândalo -, mostrou a sua veia activista: “Portugal tem tido ao longo destes anos uma cobardia em relação à política angolana.”

Fronteira - Festival Literário de Castelo Branco, Deus Me Livro

Condenados ao esquecimento. Sob a moderação de Pedro Vieira – que fez a revelação de ser ele a já lendária Elena Ferrante -, Inês Pedrosa e Nuno Júdice foram convidados a, tal qual umas Mayas literárias, prever que escritor português de agora estará a ser lido daqui a 50 anos. Nuno Júdice preferiu não ferir susceptibilidades ou levantar polémicas e ficou-se por José Saramago, enquanto Inês Pedrosa, qual diplomata, avançou com o nome de Nuno Júdice. Para Nuno Júdice “o tempo é o juiz de quem fica”, e a questão da posteridade, ainda que faça parte dos planos de provavelmente de cada um de nós, não deverá preocupar quem escreve – ou, pelo menos, ser a sua maior obsessão. Porém, a posteridade está desde já garantida a Júdice, que disse ter uma arca que os desempregados editoriais de 2066 poderão abrir, servindo-se de inéditos como quem usa manteiga em pãozinho quente. Para Inês Pedrosa, uma boa hipótese de se evitar o desaparecimento de algumas das maiores figuras literárias portuguesas poderá passar pela edição de uma verdadeira colecção de clássicos, à boa moda da velhinha Sá da Costa. Ambos concordaram que não é saudável impor arquétipos ou exigir comportamentos aos escritores, e de que a mitificação destes não encerra nada mais que a pura artificialidade.

Fronteira - Festival Literário de Castelo Branco, Deus Me Livro

Para a noite ficou reservada uma Missa Maldita, conduzida magistralmente pelo frei Renato Filipe Cardoso. Uma viagem por alguns clássicos e outros poemas mais dados ao território indie, que passaram por grandes superfícies, delírios sexuais, tiques políticos ou andanças facebookianas. É certo que não houve comunhão, mas não faltou um ámen dito com aplausos e água benta para mandar tudo embora na paz do senhor.

Coube a Luís Represas, já com 40 anos de carreira em cima do corpinho, encerrar o Fronteira, numa conversa com Tito Couto que teve algumas músicas pelo meio e que foi dos tempos dos pré-Trovante, onde o cachet era pago em medronho, à ida para Cuba, a terra dos fatos de treino verdes. Para o ano, com ou sem poesia, haverá certamente mais fronteiras a serem atravessadas.

 

Fotos gentilmente cedidas pela Booktailors.

Fronteira - Festival Literário de Castelo Branco

Pedro Miguel Silva

Pode Gostar de

  • Onde Esconder Uma Estrela, Oliver Jeffers, Deus Me Livro, Crítica, Orfeu Negro, Mil Folhas

    “Onde Esconder Uma Estrela” | Oliver Jeffers

  • Feliz Ano Velho, Marcelo Rubens Paiva, Deus Me Livro, Crítica, D. Quixote, Dom Quixote, Mil Folhas

    “Feliz Ano Velho” | Marcelo Rubens Paiva

  • Duke, Deus Me Livro, Arte de Autor, Crítica, Duke 7, Este Mundo Não é o Meu, Hermann H., Yves H., Mil Folhas

    “Duke 7: Este Mundo Não é o Meu” | Hermann & Yves H.

Sem Comentários

Deixe uma opinião Cancelar

Siga-nos aqui

Follow @Deus_Me_Livro
Follow on Instagram

Mil Folhas

  • Onde Esconder Uma Estrela, Oliver Jeffers, Deus Me Livro, Crítica, Orfeu Negro,

    “Onde Esconder Uma Estrela” | Oliver Jeffers

    05/03/2026
  • Feliz Ano Velho, Marcelo Rubens Paiva, Deus Me Livro, Crítica, D. Quixote, Dom Quixote,

    “Feliz Ano Velho” | Marcelo Rubens Paiva

    05/03/2026
  • Duke, Deus Me Livro, Arte de Autor, Crítica, Duke 7, Este Mundo Não é o Meu, Hermann H., Yves H.,

    “Duke 7: Este Mundo Não é o Meu” | Hermann & Yves H.

    05/03/2026
  • Gannibal, A Seita, Deus Me Livro, Crítica, Gannibal 5, Masaaki Ninomiya,

    “Gannibal 5” | Masaaki Ninomiya

    04/03/2026
  • A Aventura do Sapo: Caos e Coaxos, A Seita, Deus Me Livro, Crítica, André F. Morgado, Kachisou,

    “A Aventura do Sapo: Caos e Coaxos” | André F. Morgado e Kachisou

    04/03/2026
Acha o Deus Me Livro diferente? CLIQUE AQUI.

Archives

  • March 2026
  • February 2026
  • January 2026
  • December 2025
  • November 2025
  • October 2025
  • September 2025
  • August 2025
  • July 2025
  • June 2025
  • May 2025
  • April 2025
  • March 2025
  • February 2025
  • January 2025
  • December 2024
  • November 2024
  • October 2024
  • September 2024
  • August 2024
  • July 2024
  • June 2024
  • May 2024
  • April 2024
  • March 2024
  • February 2024
  • January 2024
  • December 2023
  • November 2023
  • October 2023
  • September 2023
  • August 2023
  • July 2023
  • June 2023
  • May 2023
  • April 2023
  • March 2023
  • February 2023
  • January 2023
  • December 2022
  • November 2022
  • October 2022
  • September 2022
  • August 2022
  • July 2022
  • June 2022
  • May 2022
  • April 2022
  • March 2022
  • February 2022
  • January 2022
  • December 2021
  • November 2021
  • October 2021
  • September 2021
  • August 2021
  • July 2021
  • June 2021
  • May 2021
  • April 2021
  • March 2021
  • February 2021
  • January 2021
  • December 2020
  • November 2020
  • October 2020
  • September 2020
  • August 2020
  • July 2020
  • June 2020
  • May 2020
  • April 2020
  • March 2020
  • February 2020
  • January 2020
  • December 2019
  • November 2019
  • October 2019
  • September 2019
  • August 2019
  • July 2019
  • June 2019
  • May 2019
  • April 2019
  • March 2019
  • February 2019
  • January 2019
  • December 2018
  • November 2018
  • October 2018
  • September 2018
  • August 2018
  • July 2018
  • June 2018
  • May 2018
  • April 2018
  • March 2018
  • February 2018
  • January 2018
  • December 2017
  • November 2017
  • October 2017
  • September 2017
  • August 2017
  • July 2017
  • June 2017
  • May 2017
  • April 2017
  • March 2017
  • February 2017
  • January 2017
  • December 2016
  • November 2016
  • October 2016
  • September 2016
  • August 2016
  • July 2016
  • June 2016
  • May 2016
  • April 2016
  • March 2016
  • February 2016
  • January 2016
  • December 2015
  • November 2015
  • October 2015
  • September 2015
  • August 2015
  • July 2015
  • June 2015
  • May 2015
  • April 2015
  • March 2015
  • February 2015
  • January 2015
  • December 2014
  • November 2014
  • October 2014
  • September 2014
  • August 2014
  • July 2014
  • Contacto